Me sinto cada vez mais inverossímil e a linha do telefone foi cortada. Tenho lido novelas de aeroporto com nomes de mulher e não consigo evitar pensar em mim como um personagem canastrão dos anos quarenta. Ao fim de cada novela, quando a mocinha casa ou o vilão morre, fico olhando para o teto e me perguntando o que faria minha descrição valer mais que “um homem de chapéu” ou “um nariz afunilado”. E fico lembrando de Clara.
Clara seria uma ótima personagem, era profunda, linda, problemática: totalmente verossímil. E quanto mais raso eu me sinto olhando para a pilha de livros de capas iguais, mais viva me parece a lembrança de Clara. Ela tinha a complexidade de uma personagem. Corria o risco até de parecer caricata, não fosse tão sólida. Minha Clara era bipolar, bissexual, ambidestra e duas caras. Tudo isso porque o comum, amor, não é o suficiente para encher esse vazio aqui dentro, sabe? Eu dizia que sabia. E a verdade é que eu sabia mesmo. E também sabia que ela não valia um prato de arroz. Não se podia acreditar em uma única palavra que saísse da boca larga e entreaberta de adolescente. Clara, a vilã.
Clara dizia que me amava e contava quando ficava com as amiguinhas do colégio. Desconfio que sua suposta bissexualidade era mais tipo que desejo. Me traía sistematicamente, repetindo um ciclo de meninas. Não me importava. Aos vinte e seis anos eu achava bonito qualquer coisa que uma menina de dezessete me contasse com os olhinhos apertados de maconha e Martini doce. Ela fumava. E bebia. E não dava a mínima para os efeitos que isso podia ter em cima dos remédios estabilizantes de humor. Então ela ria alto, caía no meu peito chorando e voltava a rir antes que as lágrimas secassem. Clara inconstante.
Apesar disso, parecia uma jovem saudável. Os cabelos claros davam um ar de leveza, os olhos castanhos um quê de seriedade, sua coluna era reta. Tinha uma postura e tanto. Os ombros não eram caídos daquela forma triste e melancólica que os ombros caem, formando um triângulo embaixo da cabeça, os dela traçavam uma linha reta, perfeitamente equilibrada. Ela toda era simétrica. Eu podia jurar que cada sardinha pintada em cima de um ombro teria uma correspondente no mesmo lugar do ombro oposto. Clara perfeição.
Mas era evidente desde cedo que ela era daquelas mulheres criadas unicamente para arruinar a vida de um homem. A vantagem que eu tinha sobre ela é que ela ainda não o sabia. Mas os sintomas estavam todos lá. A voz um tom abaixo para falar comigo, os olhos aguados para pedir desculpas, os ataques de ciúmes para que eu me sentisse o mais importante homem do universo. Como se fosse o único. Clara, a cobra e a maçã.
Também havia as mentiras. E quando eu descobria, não ouvia um pedido de perdão, um motivo. Ela brigava, aos gritos, xingando as amigas fofoqueiras que andavam por aí abrindo a boca. Elas é que estavam erradas por contar o que minha menina fazia às escondidas. Eu não me incomodava com as conquistas femininas de Clara, mas perdia o chão quando ficava sabendo de outros homens, sabendo que ela distribuía aqueles olhares e usava aquele tom de voz com eles. E por isso ela não me contava. E por isso eu ficava sabendo pelas amigas dela que me viam como um Don Juan pelos anos a mais e o apartamento próprio. Clara, quando contra a parede, me olhava fundo, chorava um rio e dizia que ela não prestava, que não me merecia. Eu concordava em silêncio e mentia alto que nem tanto. Era horrível ver Clara vendo a si mesma. Eu preferia quando ela vagava pelo meu apartamento, de pés descalços, os calcanhares tortos para dentro, fechando as venezianas, soprando pó dos móveis. Ela foi o mais extraordinário que já me aconteceu. E eu me sentia também extraordinário só por estar perto dela, sem perceber que depois dela, seria sempre coadjuvante da sua história, nunca o contrário. Clara tinha um riso de escárnio.
Ela foi estudar um mês em Londres e nunca voltou. Mandou uma única carta dizendo que viajara de mochila nas costas, trabalhou em pubs, fez sete tatuagens, pintou o cabelo de rosa, foi morar com um cara que era dono de um restaurante, tinha uma moto e um sotaque britânico puta charmoso, mas isso é óbvio, todos os britânicos têm um sotaque britânico puta charmoso, não é mesmo? Era mesmo. Nunca escrevi de volta. Clara, meu clichê preferido.
Maria Luiza pousava o indicador sobre o meu dedão. Eu apertava os olhos ainda mais. Ao lado do indicador, colocava o dedo médio. Posso imaginá-la esticando estes dois e juntando os outros na palma da mão. Delicadamente, sua mão caminhava na ponta das unhas. Maria Luiza contava os dedos dos meus pés toda manhã ao acordar.
Ao terminar, escolhia um dos dedos para lamber com sua língua quente, engatinhava até meu travesseiro e sussurrava no meu ouvido “Todos os dez”. Eu me virava para ela, que levantava e se vestia em questão de segundos. Sentada na poltrona verde, ela enfiava seus pézinhos em meias masculinas. Levantava a cabeça para mim com olhos de pavão vaidoso, eu a observava de volta com olhos de ovelha em dia de chuva. As ovelhas sempre morrem nas enchentes porque não sabem nadar. Nem fugir. Todos os dias passamos pelo mesmo ritual, exceto foi, naquela manhã.
…
Por três semanas sonhei que um enorme peixe dourado me engolia sem mastigar. Bastava um peteleco da língua que me fazia quicar no céu da boca e cair direto na garganta. Na passagem do esôfago, eu abria os braços e pernas para tentar me segurar. Mas meus braços eram muito curtos. Eu caía na água suja do estômago me embaralhando em algas. Depois de boiar por algumas horas, era como se houvesse um terremoto, o peixe se chacoalhava numa convulsão horrível e depois, silenciava. Cortando o silêncio, uma enorme ponta metálica perpassava toda a barriga do peixe. Era um faca e eram humanos, também gigantes, retirando as tripas da pesca. Mas eles me tiravam do estômago imundo, segurando meus ombros entre dois dedos de suas mãos absurdas, e me jogavam dentro de uma bacia, desprezando o peixe à lata de lixo. Um homem do tamanho de um barco retirava minhas roupas e espremia limões do tamanho do sol em cima da minha cabeça. Ao acordar, eu sentia o cheiro de tomilho, que desconfio ser o que gigantes usam para temperar o jantar.
…
Naquela manhã, Maria Luiza correu os dedos dos meus pés três vezes seguidas. A cada contagem, esperou alguns segundos e começou de novo. Apertei os olhos ainda mais. Ela mexeu meu pé esquerdo para os lados e soltou um suspiro que soou como “ham”. Senti seu peso se deslocando pelo colchão. Maria Luiza deitou sobre as minhas costas:
– Ricardo, só contei nove.
…
Depois de três semanas, eu dormia e o sonho começava quando o homem dos limões me tirava da bacia e me jogava em um caldeirão. Eu me pendurava na beirada e observava os gigantes trazerem troncos de árvores para acender o fogo embaixo de mim. Em pouco tempo a água fervia, mas eu não sentia calor no meio da água borbulhante. Enquanto eu nadava de um lado a outro da panela, intercalando mergulhos e desajeitadas cambalhotas, eu via cair ao meu redor enormes cenouras, batatas, couves e toda sorte de legumes gigantescos. Na hora em que caíam as vagens, eu me virava de barriga para cima e boiava até os gigantes despejarem todo o conteúdo do caldeirão em um escorredor. Ali eu era uma das primeiras coisas a cair, soterrado em água escaldante e massarocas de abóbora e aipim. Depois éramos atirados, eu e os legumes, em uma imensa bandeja prateada. Uma mulher que era alta até mesmo entre os enormes humanos, se aproximava e arrumava os vegetais em círculos: os maiores na parte externa, terminando com as pequeninas ervilhas que circundavam uma belíssima cebola roxa, no centro da bandeja, em cima da qual eu ficava sentado. Nada me incomodava em absoluto, até que a mulher alta me deitava na cebola e pressionava meu estômago para que eu não levantasse. Um pânico frio corria minha espinha de cima a baixo e voltava até as orelhas. Ela arrancava todos os dedos dos meus pés, para colocar cada um no topo de uma batata.
Toda noite eu acordava aterrorizado e cheguei mesmo a dormir de sapatos por um pequeno período, quando Maria Luiza viajou para fora do estado por duas semanas.
…
Naquela manhã, em que o ventilador amanheceu quebrado e o tapete estava fora do lugar, eu chamei Maria Luiza de palhaça e abracei sua cintura. Ela não sorriu.
– Ricardo, juro. – Ela hesitou – Nove.
Ela me encarou com olhos de terneiro que pedem socorro ao mesmo tempo que abandonam e eu olhei para meus pés como um rato envenenado. No pé esquerdo, faltava o minguinho.
Sentei ao mesmo tempo em que dobrei as pernas e puxei o pé para perto do rosto. No lençol não havia sangue, o próprio pé não sangrava. Onde devia estar o dedo havia apenas carne viva, como se o buraco do dedo tivesse sido preenchido com guisado cru. Maria Luiza saiu da cama e pôs os tênis ainda de pijama.
– Vamos ao pronto-socorro.
Eu levantei, calcei os chinelos e fomos juntos até o carro. No caminho, me desequilibrei algumas vezes, o ponto de apoio na extremidade do pé fazia falta. Maria Luiza quis dirigir.
– Pelo chinelo, não pelo… É perigoso dirigir de chinelo – ela disse – você sabe.
Não respondi. Entrei no lado do passageiro e a cada esquina fechei os olhos com força, para ver se quando eu abrisse não estaria acordando na minha cama, com Maria Luiza contando meus dez dedos.
No hospital fomos atendidos com certa rapidez, Maria Luiza deu a entender que eu havia perdido um dedo e precisava reimplantá-lo. O médico apareceu em passos curtos e rápidos:
– Onde está o dedo?
– Nós não sabemos, doutor.
– Vocês perderam o dedo?
– Ele simplesmente desapareceu – eu disse.
O médico olhou para o meu pé. Contorceu o rosto e perguntou pelo sangue. Não havia sangue. Perguntou pelo dedo novamente. Não havia dedo. Perguntou por dor. Não doía. Nos levou até uma sala. Examinou meu dedo. Cruzou os braços. Disse que não havia nada a se fazer. Ele sentia muito. O médico nos acompanhou até a saída. Desejou boa tarde e me ofereceu, tímido, um band-aid. Aceitei.
No caminho de volta, no meio do silêncio meu e de Maria Luiza, chorei feito uma criança, e faltou coragem para olhar Luiza ao meu lado. Ela dizia a cada duzentos metros que tudo ficaria bem. Quis que a viagem durasse centenas de quilômetros para ver se passava a acreditar.
Chegamos no apartamento e eu sentei na poltrona da sala, diante do jornal. Que importância tinha o jornal? Maria Luiza sugeriu vermos um cirurgião, um plástico, um fisioterapeuta, um homeopata. Recusei tudo, era ridículo.
– Bem, então o que? – ela perguntou
– Então nada. É isso, eu sou um homem com nove dedos.
Maria Luiza sentou no chão e encostou as costas no sofá. Dentro de seus tênis, havia pés perfeitos. Fui sincero:
– Se você não é capaz de amar um homem com nove dedos, pode ir embora.
– Não seja louco.
– Estou falando sério, vá embora.
– Eu não me importo com teus dedos.
– Pode ir embora, Maria Luiza.
– Eu não me importo com teus dedos, Ricardo – ela repetiu me olhando com olhos de pomba. As pombas fingem medo, mas sempre sabem o exato instante de sair voando.
Diante do medo dela, eu quase cedi.
– Eu quero que você vá embora.
Ela repetiu dez vezes que não se importava com meus dedos, chegou a gritar, a bater os punhos fechados contra o meu peito, não me importo, não me importo, não me importo, mas era óbvio que se importava. Mandei-a embora. Qualquer um se importaria. Não a vi fazer as malas, mas vi que saiu com duas, a dela de couro e a minha mochila. Passei o resto do dia jogando pela janela as fotos em que eu aparecia, rasgando meus livros, destruindo tudo que me recordasse de mim e experimentando minhas meias que não me serviam mais. À noite, caminhando em vaivém pelo corredor, vi no espelho meus olhos de humano triste. As pequeninas meias de Maria Luiza talvez tivessem me servido.
Fica. Não porque eu quero que você fique ou porque você quer ficar. Só para a gente não ficar sozinho. Deita na minha cama quente e passa a noite comigo. Lá fora chove e você não tem onde se esconder e vai ser obrigado a lembrar daquela vida da qual você tanto foge, então fica e te esconde no meu lençol. Não pelo conforto, pela fuga. Continue Reading »
Quando entrei no quarto, ela segurava um cigarro entre os dedos do pé. Aquilo me enlouquecia. Não entendia porque alguém sentia a necessidade de fazer três coisas ao mesmo tempo para depois ficar horas fazendo nada. Elizabeth cortava batatas, falava ao celular e fumava. Eu não veria, porque tinha que trabalhar, mas sabia que ela passaria o resto da tarde atirada no colchão do meio da sala, sem mover um braço.
Estávamos vivendo em um buraco no meio do deserto peruviano. Eu trabalhava como garçom no restaurante de um albergue, me pagavam uma miséria, mas me davam alojamento e comida. Liz não trabalhava. Ela poderia secar a louça com notas de 50 dólares se quisesse, mas mentia que era pobre. Acho que a mentira tornava sua vida mais próxima de uma aventura. No fim, eu invejava o dinheiro dela, e ela invejava minha loucura miserenta em um país ainda mais miserável. Continue Reading »
A sala dos professores está lotada. Uma senhora gorda, modelo 54 judiado, entra com uma pilha de mapas. Mira a cafeteira e avança por cima da estagiária franzina, vencendo a distância a solavancos. Com a boca cheia de restos de bolacha água e sal, dispara entre os presentes:
– Vocês já sabem da última? Continue Reading »
Era para ser um sábado como qualquer outro. Eu saí de casa perto das duas, caminhei até o café a uma quadra da minha casa, sentei na minha mesa e pedi o almoço. Nos dias quentes sempre gostei de tomar sopas. O café era o único lugar no meu bairro que servia sopas no verão. E eu devia ser o único que as tomava. É que eu sentia o caldo descendo pela garganta, o calor propagando-se por todo o corpo, o suor nascendo na nuca. Era minha íntima subversão.
Enquanto esperava o garçom, arrumei o saleiro, a pimenta e o queijo ralado da maneira mais agradável na mesa. Rescostei-me na cadeira e vi descendo a rua um homem alto e idoso, acompanhado de uma menina de uns quatorze anos. O homem parecia-se comigo, apenas mais velho. Mantinha as mãos nos bolsos da calça cinza e sua gravata às vezes ondulava contra o vento. A menina gesticulava muito e, a todo instante, prendia os cabelos loiros atrás da orelha. Era o tipo que falava com as mãos. Ela parou no centro da calçada, fez o homem voltar-se para ela e riscou no ar um enorme círculo que acabava em duas espirais, desenhadas pelas mãos que desceram até quase o chão. Continue Reading »
Óculos novos fazem eu me sentir numa prisão. A partir do momento que eu saio da ótica com aquela armadura, digo, armação nova, já sinto um formigamento que começa na ponta do nariz. Depois o formigamento sobe em círculos até tomar conta da testa. Se alastra para as orelhas. A língua adormece. O pescoço se contrai. O formigamento desce levantando os pêlos do peito. Revira o estômago. Faz qualquer coisa no pâncreas que ninguém sabe mesmo para que serve o pâncreas e quando chega nos joelhos causa uma tremedeira daquelas de quem está apaixonado e eu me dou conta que só andei até a esquina da quadra da ótica e ainda me falta atravessar a rua. Continue Reading »
Um dia você acordará e seus sapatos não lhe servirão. Não importa se você terá engordado ou se terá envelhecido e encolhido. Fato é que um dia você acordará e seus sapatos não lhe servirão mais. Você vai senti-los pressionando o dedão ou caindo pelo calcanhar, dará algumas voltas pelo quarto, olhará para o espelho e enfim aceitará que não te servem. E o mais importante é o que você fará então. Você poderá teimosamente usá-los e encravar uma unha. Poderá furar a ponta. Usar uma palmilha. Poderá comprar outro. Ou poderá andar descalço. Seja como for, é uma escolha para o resto da vida. Ou, pelo menos, até o próximo dia em que você acordar e seus sapatos não estiverem ali. Continue Reading »
(Dizem que uma pessoa pode morrer se trancar um espirro. Uma veia importante pode estourar e dar início a uma hemorragia. Eu tenho rinite crônica. A cada dia eu passo por aproximadamente 80 situações de risco de vida. Isso porque eu não sei espirrar. Não me ensinaram. Me diziam que era feio espirrar alto então até hoje eu prendo o nariz. E toda vez eu imagino que alguma veia lá dentro está ficando fraca, cada vez mais fraca, esperando o dia de explodir e sangrar até que eu morra. Que escrevam na minha lápide: Aqui jaz Gustavo Torres, morto de espirro.) Continue Reading »
A primeira carta que recebi de Pedro foi duas semanas após sua partida para o Paraná. Nunca escreveu o endereço de remetente, dizia que não queria jamais ser encontrado. Ele largara um bom emprego e um alto salário para viver em um pequeno hotel no meio da natureza. Lá conheceu Leda. Imagino que foi por causa dela que passou a me escrever, contando-me as pequenas particularidades de sua vida a dois. Pedro nunca tivera um relacionamento longo, acho que precisava dividir as novidades. De minha parte, apreciava a correspondência. Entre meus e-mails de trabalho, as chamadas perdidas no celular, os bips e apitos dos eletrodomésticos e a salvação do ar condicionado, receber uma carta social era um anacronismo inspirador. Cheguei a criar o hábito de abrir uma garrafa de vinho para ler as cartas de Pedro. Continue Reading »
Joana me convida para sair, ela colocou nossos nomes na lista de um bar onde normalmente nenhuma de nós teria dinheiro para entrar. Estávamos no quintal da minha casa, tomando chimarrão. A coloração do dia tinha passado de cor de trigo para um lilás escuro, pontilhado de respingos prateados. A luz era algo, era uma coisa com a qual interagíamos. Disse a Joana que não era uma boa idéia. Eu estava namorando há poucos meses e não queria correr o menor risco de cair em tentação. Ela riu na minha cara. Disse que não esperava isso de mim:
– Eu não esperava isso de ti. Continue Reading »
Assim que entro no bar me perco de João. Ele se misturou às pessoas que sacudiam suas cabeças em meio às luzes giratórias e eu fiquei presa na entrada, esperando que a mocinha de terno revistasse minha bolsa. Decepcionada, ela me libera na falta de drogas, garrafas ou facas e eu tento achar meu amigo no meio da batida eletrônica.
João me agarra pelos ombros e uiva no meu ouvido “uhuuuuuuuuuuuu” me arrasta até o bar e pede uma água. Só existe uma situação em que João pediria água. Ele abre a garrafa e me mostra um comprimido “pega isso, deixa embaixo da língua, puta barato”. Obedeço. Sou muito obediente.
Alguns minutos depois, João está desaparecido há anos e eu não me importo. Sem querer, paro na frente de uma porta e tenho a mais clara certeza que era isso que eu procurava. Enquanto tento mexer a mão direita (mas o cérebro parece só mandar sinais para o joelho esquerdo) a porta se abre e Hunter Thompson me encara de cima abaixo “Eles disseram que você seria loira” ele me diz. Ofendida, respondo que “eles me disseram que você estava morto”. Hunter Thompson sorri e me pega pela mão. Descemos uma escada escura e no subsolo descobrimos uma sala de paredes vermelhas e tochas de fogo pendendo do teto. Continue Reading »
Era noite e na casa de Eugênia só havia uma lâmpada acesa. As outras se acumulavam em uma caixa de papelão no canto da sala, quebradas ou queimadas. A parca luz do quarto iluminava Eugênia e suas duas filhas, Glória e Teresa, 7 e 9 anos ao pé da cama. Eugênia costurava, ouvia as conversas da filha sobre o dia na escola, os professores e os cochichos que falavam de meninos.
Teresa ajudava Glória com o tema de casa. Mas em certo momento nenhuma das duas conseguia resolver um problema de matemática, suas respostas não batiam com o gabarito que o professor passara. Foi Teresa quem perguntou:
– Mãe, a senhora acha que os professores têm sempre razão? Continue Reading »
Eu estava sentada na cama dele, fumando um cigarro dele, de frente pro aquário dele, olhando os peixes dele, quando ele entrou no quarto e disse:
– Já disse para você não fumar os meus cigarros.
– Um cigarro, Juliano, que diferença faz?
Ele já estava do meu lado, pegando a carteira de Marlboro de cima da minha coxa e resmungando:
– Um cigarro todo dia, durante toda semana já dão sete.
– Eu sei contar, Juliano. Continue Reading »
Um dia o chefe da repartição chegou dizendo que todos íamos trabalhar até as sete da noite.
– Que porra é essa? – eu disse – meu horário é até às cinco e não fico aqui nem mais um minuto.
O chefe nem me olhou para responder.
– Bem, Thomas, se você quer perder o emprego, não tenho nada com isso.
Ele era o maior filha da puta que já pisara naquele prédio e não era eu quem ia acatar ordens de um imbecil.
– Não estou nem aí – disse para Cris, o garoto que trabalha na mesa ao lado – vou embora às cinco horas. Melinda está em casa me esperando e não vou trocar aquele lindo e quente traseiro pelo traseiro gordo de um idiota. Continue Reading »