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	<title>Vida Parada</title>
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	<description>quinze contos de vidas paradas e deslocadas</description>
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		<title>Vida Parada</title>
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		<title>Humildade</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Oct 2009 03:14:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>juliabdantas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humildade]]></category>

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		<description><![CDATA[Me sinto cada vez mais inverossímil e a linha do telefone foi cortada. Tenho lido novelas de aeroporto com nomes de mulher e não consigo evitar pensar em mim como um personagem canastrão dos anos quarenta. Ao fim de cada novela, quando a mocinha casa ou o vilão morre, fico olhando para o teto e [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=58&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Me sinto cada vez mais inverossímil e a linha do telefone foi cortada. Tenho lido novelas de aeroporto com nomes de mulher e não consigo evitar pensar em mim como um personagem canastrão dos anos quarenta. Ao fim de cada novela, quando a mocinha casa ou o vilão morre, fico olhando para o teto e me perguntando o que faria minha descrição valer mais que “um homem de chapéu” ou “um nariz afunilado”. E fico lembrando de Clara.<span id="more-58"></span></p>
<p>Clara seria uma ótima personagem, era profunda, linda, problemática: totalmente verossímil. E quanto mais raso eu me sinto olhando para a pilha de livros de capas iguais, mais viva me parece a lembrança de Clara. Ela tinha a complexidade de uma personagem. Corria o risco até de parecer caricata, não fosse tão sólida. Minha Clara era bipolar, bissexual, ambidestra e duas caras. Tudo isso porque o comum, amor, não é o suficiente para encher esse vazio aqui dentro, sabe? Eu dizia que sabia. E a verdade é que eu sabia mesmo. E também sabia que ela não valia um prato de arroz. Não se podia acreditar em uma única palavra que saísse da boca larga e entreaberta de adolescente. Clara, a vilã.</p>
<p>Clara dizia que me amava e contava quando ficava com as amiguinhas do colégio. Desconfio que sua suposta bissexualidade era mais tipo que desejo. Me traía sistematicamente, repetindo um ciclo de meninas. Não me importava. Aos vinte e seis anos eu achava bonito qualquer coisa que uma menina de dezessete me contasse com os olhinhos apertados de maconha e Martini doce. Ela fumava. E bebia. E não dava a mínima para os efeitos que isso podia ter em cima dos remédios estabilizantes de humor. Então ela ria alto, caía no meu peito chorando e voltava a rir antes que as lágrimas secassem. Clara inconstante.</p>
<p>Apesar disso, parecia uma jovem saudável. Os cabelos claros davam um ar de leveza, os olhos castanhos um quê de seriedade, sua coluna era reta. Tinha uma postura e tanto. Os ombros não eram caídos daquela forma triste e melancólica que os ombros caem, formando um triângulo embaixo da cabeça, os dela traçavam uma linha reta, perfeitamente equilibrada. Ela toda era simétrica. Eu podia jurar que cada sardinha pintada em cima de um ombro teria uma correspondente no mesmo lugar do ombro oposto. Clara perfeição.</p>
<p>Mas era evidente desde cedo que ela era daquelas mulheres criadas unicamente para arruinar a vida de um homem. A vantagem que eu tinha sobre ela é que ela ainda não o sabia. Mas os sintomas estavam todos lá. A voz um tom abaixo para falar comigo, os olhos aguados para pedir desculpas, os ataques de ciúmes para que eu me sentisse o mais importante homem do universo. Como se fosse o único. Clara, a cobra e a maçã.</p>
<p>Também havia as mentiras. E quando eu descobria, não ouvia um pedido de perdão, um motivo. Ela brigava, aos gritos, xingando as amigas fofoqueiras que andavam por aí abrindo a boca. Elas é que estavam erradas por contar o que minha menina fazia às escondidas. Eu não me incomodava com as conquistas femininas de Clara, mas perdia o chão quando ficava sabendo de outros homens, sabendo que ela distribuía aqueles olhares e usava aquele tom de voz com eles. E por isso ela não me contava. E por isso eu ficava sabendo pelas amigas dela que me viam como um Don Juan pelos anos a mais e o apartamento próprio. Clara, quando contra a parede, me olhava fundo, chorava um rio e dizia que ela não prestava, que não me merecia. Eu concordava em silêncio e mentia alto que nem tanto. Era horrível ver Clara vendo a si mesma. Eu preferia quando ela vagava pelo meu apartamento, de pés descalços, os calcanhares tortos para dentro, fechando as venezianas, soprando pó dos móveis. Ela foi o mais extraordinário que já me aconteceu. E eu me sentia também extraordinário só por estar perto dela, sem perceber que depois dela, seria sempre coadjuvante da sua história, nunca o contrário. Clara tinha um riso de escárnio.</p>
<p>Ela foi estudar um mês em Londres e nunca voltou. Mandou uma única carta dizendo que viajara de mochila nas costas, trabalhou em pubs, fez sete tatuagens, pintou o cabelo de rosa, foi morar com um cara que era dono de um restaurante, tinha uma moto e um sotaque britânico puta charmoso, mas isso é óbvio, todos os britânicos têm um sotaque britânico puta charmoso, não é mesmo? Era mesmo. Nunca escrevi de volta. Clara, meu clichê preferido.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/vidaparada.wordpress.com/58/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/vidaparada.wordpress.com/58/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/vidaparada.wordpress.com/58/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/vidaparada.wordpress.com/58/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/vidaparada.wordpress.com/58/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/vidaparada.wordpress.com/58/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/vidaparada.wordpress.com/58/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/vidaparada.wordpress.com/58/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/vidaparada.wordpress.com/58/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/vidaparada.wordpress.com/58/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/vidaparada.wordpress.com/58/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/vidaparada.wordpress.com/58/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/vidaparada.wordpress.com/58/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/vidaparada.wordpress.com/58/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=58&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Renúncia</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Oct 2009 03:12:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>juliabdantas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Renúncia]]></category>

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		<description><![CDATA[Maria Luiza pousava o indicador sobre o meu dedão. Eu apertava os olhos ainda mais. Ao lado do indicador, colocava o dedo médio. Posso imaginá-la esticando estes dois e juntando os outros na palma da mão. Delicadamente, sua mão caminhava na ponta das unhas. Maria Luiza contava os dedos dos meus pés toda manhã ao [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=56&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Maria Luiza pousava o indicador sobre o meu dedão. Eu apertava os olhos ainda mais. Ao lado do indicador, colocava o dedo médio. Posso imaginá-la esticando estes dois e juntando os outros na palma da mão. Delicadamente, sua mão caminhava na ponta das unhas. Maria Luiza contava os dedos dos meus pés toda manhã ao acordar.</p>
<p>Ao terminar, escolhia um dos dedos para lamber com sua língua quente, engatinhava até meu travesseiro e sussurrava no meu ouvido “Todos os dez”. Eu me virava para ela, que levantava e se vestia em questão de segundos. Sentada na poltrona verde, ela enfiava seus pézinhos em meias masculinas. Levantava a cabeça para mim com olhos de pavão vaidoso, eu a observava de volta com olhos de ovelha em dia de chuva. As ovelhas sempre morrem nas enchentes porque não sabem nadar. Nem fugir. Todos os dias passamos pelo mesmo ritual, exceto foi, naquela manhã.<span id="more-56"></span></p>
<p style="text-align:center;">&#8230;</p>
<p>Por três semanas sonhei que um enorme peixe dourado me engolia sem mastigar. Bastava um peteleco da língua que me fazia quicar no céu da boca e cair direto na garganta. Na passagem do esôfago, eu abria os braços e pernas para tentar me segurar. Mas meus braços eram muito curtos. Eu caía na água suja do estômago me embaralhando em algas.  Depois de boiar por algumas horas, era como se houvesse um terremoto, o peixe se chacoalhava numa convulsão horrível e depois, silenciava. Cortando o silêncio, uma enorme ponta metálica perpassava toda a barriga do peixe. Era um faca e eram humanos, também gigantes, retirando as tripas da pesca. Mas eles me tiravam do estômago imundo, segurando meus ombros entre dois dedos de suas mãos absurdas, e me jogavam dentro de uma bacia, desprezando o peixe à lata de lixo. Um homem do tamanho de um barco retirava minhas roupas e espremia limões do tamanho do sol em cima da minha cabeça. Ao acordar, eu sentia o cheiro de tomilho, que desconfio ser o que gigantes usam para temperar o jantar.</p>
<p style="text-align:center;">&#8230;</p>
<p>Naquela manhã, Maria Luiza correu os dedos dos meus pés três vezes seguidas. A cada contagem, esperou alguns segundos e começou de novo. Apertei os olhos ainda mais. Ela mexeu meu pé esquerdo para os lados e soltou um suspiro que soou como “ham”. Senti seu peso se deslocando pelo colchão. Maria Luiza deitou sobre as minhas costas:</p>
<p>– Ricardo, só contei nove.</p>
<p style="text-align:center;">&#8230;</p>
<p>Depois de três semanas, eu dormia e o sonho começava quando o homem dos limões me tirava da bacia e me jogava em um caldeirão. Eu me pendurava na beirada e observava os gigantes trazerem troncos de árvores para acender o fogo embaixo de mim. Em pouco tempo a água fervia, mas eu não sentia calor no meio da água borbulhante. Enquanto eu nadava de um lado a outro da panela, intercalando mergulhos e desajeitadas cambalhotas, eu via cair ao meu redor enormes cenouras, batatas, couves e toda sorte de legumes gigantescos. Na hora em que caíam as vagens, eu me virava de barriga para cima e boiava até os gigantes despejarem todo o conteúdo do caldeirão em um escorredor. Ali eu era uma das primeiras coisas a cair, soterrado em água escaldante e massarocas de abóbora e aipim. Depois éramos atirados, eu e os legumes, em uma imensa bandeja prateada. Uma mulher que era alta até mesmo entre os enormes humanos, se aproximava e arrumava os vegetais em círculos: os maiores na parte externa, terminando com as pequeninas ervilhas que circundavam uma belíssima cebola roxa, no centro da bandeja, em cima da qual eu ficava sentado. Nada me incomodava em absoluto, até que a mulher alta me deitava na cebola e pressionava meu estômago para que eu não levantasse. Um pânico frio corria minha espinha de cima a baixo e voltava até as orelhas. Ela arrancava todos os dedos dos meus pés, para colocar cada um no topo de uma batata.</p>
<p>Toda noite eu acordava aterrorizado e cheguei mesmo a dormir de sapatos por um pequeno período, quando Maria Luiza viajou para fora do estado por duas semanas.</p>
<p style="text-align:center;">&#8230;</p>
<p>Naquela manhã, em que o ventilador amanheceu quebrado e o tapete estava fora do lugar, eu chamei Maria Luiza de palhaça e abracei sua cintura. Ela não sorriu.</p>
<p>– Ricardo, juro. – Ela hesitou – Nove.</p>
<p>Ela me encarou com olhos de terneiro que pedem socorro ao mesmo tempo que abandonam e eu olhei para meus pés como um rato envenenado. No pé esquerdo, faltava o minguinho.</p>
<p>Sentei ao mesmo tempo em que dobrei as pernas e puxei o pé para perto do rosto. No lençol não havia sangue, o próprio pé não sangrava. Onde devia estar o dedo havia apenas carne viva, como se o buraco do dedo tivesse sido preenchido com guisado cru. Maria Luiza saiu da cama e pôs os tênis ainda de pijama.</p>
<p>– Vamos ao pronto-socorro.</p>
<p>Eu levantei, calcei os chinelos e fomos juntos até o carro. No caminho, me desequilibrei algumas vezes, o ponto de apoio na extremidade do pé fazia falta. Maria Luiza quis dirigir.</p>
<p>– Pelo chinelo, não pelo&#8230; É perigoso dirigir de chinelo – ela disse – você sabe.</p>
<p>Não respondi. Entrei no lado do passageiro e a cada esquina fechei os olhos com força, para ver se quando eu abrisse não estaria acordando na minha cama, com Maria Luiza contando meus dez dedos.</p>
<p>No hospital fomos atendidos com certa rapidez, Maria Luiza deu a entender que eu havia perdido um dedo e precisava reimplantá-lo. O médico apareceu em passos curtos e rápidos:</p>
<p>– Onde está o dedo?</p>
<p>– Nós não sabemos, doutor.</p>
<p>– Vocês perderam o dedo?</p>
<p>– Ele simplesmente desapareceu – eu disse.</p>
<p>O médico olhou para o meu pé. Contorceu o rosto e perguntou pelo sangue. Não havia sangue. Perguntou pelo dedo novamente. Não havia dedo. Perguntou por dor. Não doía. Nos levou até uma sala. Examinou meu dedo. Cruzou os braços. Disse que não havia nada a se fazer. Ele sentia muito. O médico nos acompanhou até a saída. Desejou boa tarde e me ofereceu, tímido, um band-aid. Aceitei.</p>
<p>No caminho de volta, no meio do silêncio meu e de Maria Luiza, chorei feito uma criança, e faltou coragem para olhar Luiza ao meu lado. Ela dizia a cada duzentos metros que tudo ficaria bem. Quis que a viagem durasse centenas de quilômetros para ver se passava a acreditar.</p>
<p>Chegamos no apartamento e eu sentei na poltrona da sala, diante do jornal. Que importância tinha o jornal? Maria Luiza sugeriu vermos um cirurgião, um plástico, um fisioterapeuta, um homeopata. Recusei tudo, era ridículo.</p>
<p>– Bem, então o que? – ela perguntou</p>
<p>– Então nada. É isso, eu sou um homem com nove dedos.</p>
<p>Maria Luiza sentou no chão e encostou as costas no sofá. Dentro de seus tênis, havia pés perfeitos. Fui sincero:</p>
<p>– Se você não é capaz de amar um homem com nove dedos, pode ir embora.</p>
<p>– Não seja louco.</p>
<p>– Estou falando sério, vá embora.</p>
<p>– Eu não me importo com teus dedos.</p>
<p>– Pode ir embora, Maria Luiza.</p>
<p>– Eu não me importo com teus dedos, Ricardo – ela repetiu me olhando com olhos de pomba. As pombas fingem medo, mas sempre sabem o exato instante de sair voando.</p>
<p>Diante do medo dela, eu quase cedi.</p>
<p>– Eu quero que você vá embora.</p>
<p>Ela repetiu dez vezes que não se importava com meus dedos, chegou a gritar, a bater os punhos fechados contra o meu peito, não me importo, não me importo, não me importo, mas era óbvio que se importava. Mandei-a embora. Qualquer um se importaria. Não a vi fazer as malas, mas vi que saiu com duas, a dela de couro e a minha mochila. Passei o resto do dia jogando pela janela as fotos em que eu aparecia, rasgando meus livros, destruindo tudo que me recordasse de mim e experimentando minhas meias que não me serviam mais. À noite, caminhando em vaivém pelo corredor, vi no espelho meus olhos de humano triste. As pequeninas meias de Maria Luiza talvez tivessem me servido.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/vidaparada.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/vidaparada.wordpress.com/56/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/vidaparada.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/vidaparada.wordpress.com/56/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/vidaparada.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/vidaparada.wordpress.com/56/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/vidaparada.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/vidaparada.wordpress.com/56/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/vidaparada.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/vidaparada.wordpress.com/56/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/vidaparada.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/vidaparada.wordpress.com/56/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/vidaparada.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/vidaparada.wordpress.com/56/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=56&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Angústia</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Oct 2009 01:48:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>juliabdantas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Angústia]]></category>

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		<description><![CDATA[Fica. Não porque eu quero que você fique ou porque você quer ficar. Só para a gente não ficar sozinho. Deita na minha cama quente e passa a noite comigo. Lá fora chove e você não tem onde se esconder e vai ser obrigado a lembrar daquela vida da qual você tanto foge, então fica [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=31&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fica. Não porque eu quero que você fique ou porque você quer ficar. Só para a gente não ficar sozinho. Deita na minha cama quente e passa a noite comigo. Lá fora chove e você não tem onde se esconder e vai ser obrigado a lembrar daquela vida da qual você tanto foge, então fica e te esconde no meu lençol. Não pelo conforto, pela fuga. <span id="more-31"></span>Sente a minha pele, experimenta o meu beijo e se gostar, fica. Não por sentimentalismo, não por união. Pela maciez, para apaziguar tua dor e desbotar tua cicatriz. Liga o som e escolhe a música que eu não me importo. Tira tua roupa molhada de chuva e a minha roupa seca folgada no corpo. Morde a minha boca e deixa eu beijar teu pescoço. Quero sentir o peso do teu corpo em cima do meu e conhecer teu ritmo, conhecer teu íntimo. Não por amor, para aliviar a tristeza, para adoçar a amargura dos meus dias e das tuas noites. Para chegar naquele momento antes do gozo, aquele que dá vontade dure para sempre, que eu nunca sei o que acontece ao redor porque eu sempre fecho os olhos. E você, você fecha os olhos? Naquele momento em que corre da base da espinha ao alto do pescoço uma onda de calor e formigamento, aquela sensação de febre 39 graus em que você não sente mais nada a não ser o torpor, o leve delírio que te faz pensar a gente devia fazer isso o tempo todo para sempre. Fica para a gente descobrir junto que o para sempre logo acaba, vem o clímax, o ápice, tua vida se encaixa como um quebra-cabeça perfeito para logo depois se desmanchar e você perder uma peça. A peça do canto, a que faz mais falta para montar depois. Mas fica mesmo assim. Fica pela anestesia, pelo esquecimento momentâneo, não precisa dizer nada, fica pela calma. Eu prometo não dizer que gosto de você. As mulheres sabem mentir, elas fazem isso o tempo todo. Eu faço isso o tempo todo. Te olhei nos olhos e menti. Disse que não me importava e fiz do meu descaso o teu refúgio. E hoje eu não vou dizer que me apaixonei, acho que nem amanhã. Espero nunca dizer. Por isso fica. Para ir embora no dia seguinte sem pensar em mim. E voltar no outro dia sem pensar em mim. E ficar no outro dia sem pensar em mim.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/vidaparada.wordpress.com/31/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/vidaparada.wordpress.com/31/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/vidaparada.wordpress.com/31/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/vidaparada.wordpress.com/31/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/vidaparada.wordpress.com/31/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/vidaparada.wordpress.com/31/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/vidaparada.wordpress.com/31/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/vidaparada.wordpress.com/31/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/vidaparada.wordpress.com/31/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/vidaparada.wordpress.com/31/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/vidaparada.wordpress.com/31/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/vidaparada.wordpress.com/31/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/vidaparada.wordpress.com/31/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/vidaparada.wordpress.com/31/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=31&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Apego</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Oct 2009 01:47:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>juliabdantas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Apego]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando entrei no quarto, ela segurava um cigarro entre os dedos do pé. Aquilo me enlouquecia. Não entendia porque alguém sentia a necessidade de fazer três coisas ao mesmo tempo para depois ficar horas fazendo nada. Elizabeth cortava batatas, falava ao celular e fumava. Eu não veria, porque tinha que trabalhar, mas sabia que ela [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=29&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando entrei no quarto, ela segurava um cigarro entre os dedos do pé. Aquilo me enlouquecia. Não entendia porque alguém sentia a necessidade de fazer três coisas ao mesmo tempo para depois ficar horas fazendo nada. Elizabeth cortava batatas, falava ao celular e fumava. Eu não veria, porque tinha que trabalhar, mas sabia que ela passaria o resto da tarde atirada no colchão do meio da sala, sem mover um braço.</p>
<p>Estávamos vivendo em um buraco no meio do deserto peruviano. Eu trabalhava como garçom no restaurante de um albergue, me pagavam uma miséria, mas me davam alojamento e comida. Liz não trabalhava. Ela poderia secar a louça com notas de 50 dólares se quisesse, mas mentia que era pobre. Acho que a mentira tornava sua vida mais próxima de uma aventura. No fim, eu invejava o dinheiro dela, e ela invejava minha loucura miserenta em um país ainda mais miserável.<span id="more-29"></span></p>
<p>Havíamos nos conhecido na Bolívia, em uma sala de espera de uma clínica de aparência mais ou menos confiável em La Paz. Eu levava meu amigo Paulo que pegara uma infecção intestinal. Ela levava uma amiga de nome que nunca entendi que estava passando mal com a altitude. Passamos um bocado de tempo naquela sala, especulando as chances de nossos amigos estarem em salas de cirurgia tendo os rins removidos para o mercado negro. A conversa nos divertia, mas a idéia em parte nos amedrontava. Liz sabia espanhol, mas nos entendíamos melhor em inglês. E eu gostava do seu sotaque australiano, parecia uma caricatura de idioma. Nunca disse isso a ela, temia ofendê-la.</p>
<p>Paulo levou uma injeção, ganhou meia dúzia de comprimidos e voltou a vomitar assim que pisamos na rua. Como Liz e sua amiga haviam recém chegado em La Paz, decidiram se hospedar no mesmo hotel que nós estávamos. Pelos três dias seguintes, eu e Liz passamos o dia conhecendo a cidade, enquanto Paulo não se afastava mais de três metros do banheiro e a amiga australiana (seu nome soava algo como ivfa) nos acompanhava pelas manhãs e depois precisava descansar pelo resto do dia. Paulo decidiu voltar para o Brasil. Não havia sinal de melhora e ele era um pouco neurótico. Ivfa, Iffa, Ifve ou seja lá quem fosse também decidiu ir embora e seguir para terras mais baixas. Penso que foi em direção ao Pacífico, mas não tenho certeza. A partir daí, Liz e eu começamos a viajar juntos. E naturalmente nos envolvemos.</p>
<p>Tivemos que nos adaptar ao estilo do outro. Eu saíra de São Paulo com dinheiro o suficiente para pagar pelo meu transporte e alguma comida, mas sempre que possível, o que não era seguido, arranjava um emprego e tentava juntar algum dinheiro para seguir viagem. Foi assim que acabamos em Huacachina, uma pequena vila construída em torno de um oásis do deserto peruviano. Estávamos lá há quase um mês, era mais que hora de ir embora, mas por algum motivo que eu, e suponho que nem Liz, podia compreender, nos deixamos ir ficando, como se fôssemos sendo lentamente engolidos pelo deserto, sem perceber, sem gritar por socorro.</p>
<p>Eu começava no restaurante às onze da manhã, e ficava lá até umas nove da noite. Oficialmente, meu horário acabava às sete, mas os garçons do turno da noite sempre se atrasavam. Eu estava cheio da comida que eu servia, então Liz começou a cozinhar para que tivéssemos algo diferente para comer à noite. Em pouco tempo, entretanto, estávamos comendo batatas-com-alguma-coisa todos os dias e agora, de saco cheio das batatas e do restaurante, não havia mais escapatória.</p>
<p>Liz desligou o celular quando me viu. Ela sempre desligava o celular quando me via porque sabia que eu ficava puto quando ela tinha dinheiro para pagar a conta daquela merda por satélite e dizia não ter dinheiro para pagar pelo menos uma diária em um lugar que tivesse um chuveiro decente. Estávamos juntos há apenas três meses e nos comportávamos como se aquilo fosse um casamento em ruína. Provavelmente porque éramos amigos, amantes, irmãos, pais e filhos, ao mesmo tempo ídolo e vítima um do outro. Ela era a única pessoa com eu conversara profundamente nos últimos meses. Havia outros garçons, turistas, nativos, mas as conversas com eles variavam sempre sobre os mesmos temas: nossas cidades de origem, nossas últimas paradas, nossos próximos destinos. Liz era a única pessoa naquele país inteiro que sabia que eu detestava azeitonas e deixara um cachorro no Brasil abandonado em uma praça. Aos 24 anos de idade, era minha memória mais doída. Liz não parecia entender, mas ainda assim, a idéia de que se acaso eu morresse haveria alguém no mundo para guardar minha lembrança por mim – talvez ela contasse aos netos dela que um dia amara (será que me amava?) um homem que abandonara um cão – me tranqüilizava.</p>
<p>Ela anunciou que faria batatas com carne de alpaca e perguntou se tudo bem. Eu não suportava mais nem uma coisa nem outra. Disse que estava ótimo. Peguei meus óculos escuros e sentei-me do outro lado da mesa. Precisávamos ir embora dali. Domingo eu receberia o dinheiro da semana e tínhamos que sair imediatamente. Aquela vila estava nos abatendo. Era um lugar magnífico, inacreditavelmente bonito. A primeira vez que o vimos, Liz enxugou algumas lágrimas do rosto, diante das águas azuis e os coqueiros e a impressão de termos achado o mais próximo que se pode chegar do paraíso em vida. À distância, a imagem se esfumaçava, perdia e ganhava foco. Mas estávamos diante da coisa real, nós caminhamos cem metros e tocamos nos coqueiros, caminhamos naquelas ruelas, deitamos as mãos na água.</p>
<p>Após duas semanas o paraíso se tornou igual a qualquer outro lugar do mundo. Só que menor. Muito menor. Não há ser humano que suporte todos os dias treinar surf na areia, andar de buggy nas dunas, caminhar nas dunas, escorregar nas dunas e cumprimentar os menos de 50 habitantes fixos da vila. A contemplação prolongada do imóvel nos tornou insensíveis à beleza do imóvel e, bichos urbanos que éramos, sentíamos a tremenda falta do movimento das multidões.</p>
<p>Estávamos entediados. Liz, a bem da verdade, era entediada. A mim, ela chamava de deslumbrado, e por isso andava preocupada comigo a me ver remexendo nas unhas, fazendo desenhos na areia, reorganizando as roupas na mochila. Eu só lembrava de ter me sentido tão entediado quanto aquilo nas tardes de sábado em Cruz Alta, sozinho no meu apartamento, evitando interurbano para os meus pais e secretamente desprezando os meus amigos de infância. Liz jamais me vira entediado antes e não sabia lidar com isso. Em outras cidades, ela entediada, eu a levava para caminhar por uma rua onde não tivéssemos passado antes, obrigava-a a puxar conversa com um vendedor de rua ou simplesmente trocávamos de cidade. Ali sabíamos tudo, conhecíamos todos, era como viver em um condomínio fechado. Juan, um peruano artesão andarilho, nos falava que a energia do deserto segurava as pessoas. Não todas as pessoas, se não o deserto estaria superpovoado (ele anunciava esta conclusão com ar de inteligência) apenas as pessoas capazes de sentir a energia do deserto. Juan, por causa disso, nos achava pessoas muito sensíveis. Eu e Liz, de nosso lado, o achávamos excessivamente maconheiro.</p>
<p>As batatas estavam cortadas, eu ainda não me animara a dizer a Liz meu plano de ir embora no domingo. Em pouco tempo a comida estaria pronta e ela a guardaria até de noite, porque não gostava de cozinhar no escuro, quando havia mais insetos em volta. Ela tirou o cigarro do pé, deu uma última tragada e amassou-o no tampo da mesa. Não tínhamos cinzeiro e não queríamos um, porque mobiliar a casa, por menos que fosse a mobília, seria admitir que ficaríamos ali mais tempo. Enquanto ela desenrolava a carne da embalagem de papel eu peguei o maço de cigarros e dei um beijo na sua bochecha magra. Liz reclamava que eu levava os cigarros comigo porque ficava sem nenhum para o resto do dia. Eu lhe dizia que comprasse seus próprios e ela de novo dizia não ter dinheiro para supérfluos. Era evidente que ela poderia comprar seus cigarros, como também eu poderia deixar alguns antes de sair, mas me irritava até a medula o fato de que ela não caminharia 40 metros até o restaurante para pegar um comigo. Estava tão apática que preferia deitar-se e reclamar da falta de cigarros pelo telefone para alguém do outro lado do planeta.</p>
<p>Cheguei em casa quase às dez. Liz estava jogada no colchão conversando com Juan, encostado na mesa. Juan falava da energia do deserto, como de costume. Liz se divertia e incentivava o peruano a continuar seus devaneios. Ela ficava com os olhos como o de um caçador quando ouvia histórias de pessoas que conhecíamos na viagem. Como se tentasse virar aquelas pessoas ao avesso, pegar delas tudo que lhe interessava e depois ir embora, sem deixar algo em troca. Às vezes alguém percebia o seu olhar faminto e se protegia de suas perguntas incisivas. A cada dois ou três dias, um segurança de hotel, um garçom ou um mendigo desviavam os olhos de Liz e olhavam para mim com uma expressão de desamparo, em meio a frases evasivas. Eu não sabia como atender àqueles pedidos de misericórdia, se não levando Liz para outro lugar. Mas Juan não percebia. Juan estava demasiadamente inserido no deserto para acreditar que havia algo nele que pudesse ser tirado por outra pessoa, ele mesmo era um deserto, mas Liz queria alguns montinhos de areia, e sorria para Juan encostado na minha mesa e dizia-lhe em espanhol torto:</p>
<p>– Ah, que rico, Juan, conta-me más!</p>
<p>Ele contava. Já sabíamos quase tudo a respeito de Juan, onde morava sua família, como perdera um amor para outro homem, nos ensinara a fazer alguns colares de pedra e anéis de metal. Era um homem bom, me lembrava o homem essencialmente bom de Rousseau. Diante dele, Liz perdia o ar enfadonho e era mesmo capaz de parecer agitada. Por mais que eu gostasse de vê-la sorrir, bater palmas e me olhar orgulhosa a cada frase de Juan que ela considerasse uma descoberta significativa, a situação toda me enojava um pouco. Liz olhava para Juan e não tenho dúvidas que fazia ele se sentir importante, um ser capaz de provocar interesse em uma linda australiana. Mas aquela separação entre o peruano pobre e a linda australiana me incomodava. Eu percebia que Liz estava em um estudo científico, não em uma interação humana. Os lampejos nos seus olhos vinham da mesma curiosidade que tinham os cientistas ao contemplarem o nascimento de um clone de ovelha, era o mesmo auto-contentamento de um amestrador após ensinar um truque a um macaco. Juan não era uma pessoa como ela, era um empirismo barato, um cubo mágico, um amontoado de células debaixo do microscópio. Aquilo me incomodava e eu não podia dizer a ninguém, não podia dizer a Liz porque eu sabia que no fundo não estava muito distante de Juan. Eu era apenas um macaco mais evoluído, capaz de aprender truques mais complexos. Se a Juan ela perguntava sobre espécies de milho e sua infância na pobreza, a mim ela testava com perguntas sobre filosofia, política, economia, já leste Kant? conheces a Europa? esquerda ou direita, republicano ou democrata, Joyce ou Proust?, não terminava nunca.</p>
<p>Juan vai embora depois que eu aqueço a comida. Por mais convites que tenhamos feito, ele nunca jantou conosco. Sirvo um pedaço de carne e algumas batatas para cada. Ao sentar à mesa, Liz ainda guarda um pouco do brilho causado pelas histórias de Juan. Espero que ela se aquiete um pouco e digo que deveríamos ir embora no domingo. Quem sabe Nazca? Ela demora a responder, não é comum, Liz costuma ter respostas de imediato. Ela pousa os talheres no prato &#8211; está olhando para a alpaca &#8211; coloca o cabelo atrás da orelha esquerda e me olha. Eu também paro de comer e espero.</p>
<p>Liz sugere que eu vá sozinho para Nazca, ela não se interessa muito pelo lugar e quer em breve ir para Lima. Quem sabe nos encontramos depois em Santa Lucia, ela tem muito o que fazer em Lima e sabe que eu não gosto de cidades grandes. Eu sei que em Lima ela pretende encontrar Cole, um australiano grandalhão de quem ela guarda uma foto em seu caderno de viagem. Eu sempre soube a respeito de Cole, detestei-o desde a primeira vez que ouvi seu nome. Cole, porra de nome idiota difícil de dizer. Soava como uma onomatopéia, era uma piada de nome e ela o pronunciava com esmero, em uma contorção da língua no “l” que começava do céu da boca e terminava esfregando-se na parte interna dos dentes de baixo. Cole. Ele estava vindo da Austrália para o Peru apenas para vê-la. Tinha duas semanas de férias e queria passar com Liz. Ela havia me contado tudo isso há muito tempo, antes de estarmos juntos, quando achávamos que passaríamos uns dias dividindo alguns quartos de hotéis e depois cada um seguiria para seu lado. Mas estávamos ali e fazia uns dois meses que Liz não mencionava Cole, ou Lima. Agora isso.</p>
<p>Eu disse que poderíamos ficar pouco tempo em Nazca, apenas para ver as linhas de Nazca, e depois seguiríamos juntos para Lima, eu não me importava de ficar em um centro urbano, estava mesmo precisando ver um supermercado. Era uma proposta suicida. Liz jamais iria para Lima comigo, mas eu queria ouvi-la dizer, queria ver sua língua batendo nos dentes para dizer que ela queria ir sozinha para encontrar Cole. Ela repetiu que não queria ir à Nazca, que eu não deveria me prender por ela. Ela ficaria mais um tempo em Huacachina e depois subiria direto para Lima. Decidi levar o suicídio adiante. Disse que ficaria com ela e iríamos os dois para a capital, que se fodessem as linhas. Liz finalmente pareceu abalada e levantou da mesa. Aguardei o golpe.</p>
<p>Ela entrou no banheiro e em dois segundos saiu já de pijama:</p>
<p>– Amanhã conversamos sobre isso.</p>
<p>Amanhã já era sábado.</p>
<p>Acordei deitado no meio das malas de Liz. Uma grande mochila aberta e um amontoado de frasqueiras. Do banheiro, ouvi a torneira aberta. Liz tinha a tranqüilidade de espírito de escovar os dentes antes de me abandonar. Terminei de fechar as frasqueiras e coloquei-as dentro da mochila. Ela voltou ao quarto e fingiu não se surpreender com a mala feita. Expliquei mesmo assim:</p>
<p>– Se você quer ir, muito bem. Vá. Mas eu sei que você queria ficar mais antes de encontrar Cole, então você não precisa ir ainda. Eu espero. E então, depois de esperar, você vai para Lima e eu para Nazca. Tudo como o plano original.</p>
<p>Procurei nos olhos dela alguma reação à menção de Cole. Ela apenas retirou as frasqueiras da mochila até alcançar uma cor-de-rosa. Guardou a escova de dentes. Devolveu tudo para mochila, fazendo questão de me mostrar a ordem correta de guardar frasqueiras. Depois de correr zíper, amarrar cordas, ela sentou na beirada da cama e me olhou como se fosse explicar algo elementar a uma criança:</p>
<p>– Por que prolongar por uma, duas ou três semanas algo que a gente pode acabar agora?</p>
<p>Porque eu gostava dela. Porque para mim, a pergunta era inversa: porque terminar agora algo que pode durar mais uma, duas ou três semanas? Eu nem a conhecia direito. Conhecia, com sorte, a metade dela. A metade de fora, mas gostava daquele corpo, acostumara-me a ele. Quando me deitava atrás dela, ela virada de lado, sabia que se passasse as mãos nas suas costas sentiria um sinal na espádua esquerda, contaria as doze reentrâncias de sua coluna vertebral, encaixaria a concha da mão na curva entre a cintura e o quadril. Admirava a perfeita distribuição de pêlos pelo corpo dela, começavam na nuca, facilmente arrepiáveis, diminuíam até o centro das costas, se extinguiam na altura da cintura e recomeçavam pouco mais abaixo, perdendo-se entre as nádegas redondas. Macia, a penugem loura de Liz recebia meus carinhos, cedia às minhas mãos da mesma exata maneira que já devia ter cedido a tantas outras.</p>
<p>Ela fazia eu me sentir menos sozinho, mais pela semelhança entre nós que por cumplicidade. Havia no mundo outro ser da minha espécie. Dois gauches na vida, e ela jamais saberia o que é um gauche. Duas solidões fazendo as vezes de independências.  Frustrava-me que ela não precisasse de cuidados. Queria desesperadamente ajudá-la, e ela não precisava de ajuda. Depois de uma vida convencendo as pessoas que eu não era confiável para que elas não dependessem de mim, sentia um primitivo desejo de proteger. Queria que Liz sofresse um acidente, pegasse uma doença, queria achar na porta de casa um gato sem uma pata, ou que Juan tivesse um problema com a polícia, qualquer coisa. Como não sabia mais doer em mim mesmo, buscava outras feridas para lamber. E Liz, eu a amava, de alguma maneira um pouco fraca, um pouco desesperada eu a amava da melhor forma que sabia, e me espantava que uma coisa tão bonita pudesse acontecer em um peito tão despreparado quanto o meu.</p>
<p>Liz foi embora antes do meio-dia. Fazia sol, como todos os dias. Eu fui para o restaurante, e por não conseguir fazer nada, fui imediatamente despedido. Era uma estupidez, como se houvesse alguém para me substituir num raio de 600 quilômetros, mas veio a calhar. Juntei minhas coisas, pedi a Juan que desse um jeito de ligar para Nazca e mandar um carro me buscar. Não faço a menor idéia de como Juan conseguia fazer essas coisas – ligar para Nazca, comer, vender seu artesanato, viver, enfim, mas ele sempre conseguia – e no meio da tarde chegou o meu táxi, um automóvel grande e velho, mais velho do que grande. Era uma fortuna fazer aquela viagem sozinho, sem outros passageiros para dividir os custos, mas ninguém queria sair de lá, estavam presos pela energia do deserto.</p>
<p>Negociei o preço da viagem, mais por esporte que necessidade. Os três meses de garçom até renderam bastante, em termos de país terceiro-mundista. O sol vinha se pondo enquanto viajávamos no meio da areia. Aquela estrada sem fim e aquela imensidão para o sol se colocar, sem limites, sem moldura, sem referência, fazia eu me sentir no apocalipse. Assisti ao fim do mundo, em um agosto do século dois mil.</p>
<p>Viajar em um deserto obriga os pensamentos a correrem sobre nós, porque automaticamente desliga aquele mecanismo de nomeações que aprendemos desde criança. A criança caminha ou folheia um livro de figuras e aponta para dar nome a tudo aquilo que conhece. Cachorro, árvore, papai, titia, carro, sapato, cachorro de novo. Crescemos e a coisa acontece igual, apenas não esticamos o dedo nem enunciamos os nomes. Mas as imagens mentais ainda estão todas lá enquanto caminhamos ou folheamos uma revista de famosos. Cachorro, carro que eu queria, gostosa de vestido curto, sapatos que não posso pagar, galã das oito, relógio (está tarde), sinaleira fechada, gostosa de novo. Mas viajando no deserto, o cotovelo apoiado na janela segurando o rosto pelo queixo, só nos resta olhar para dentro depois de nomear à exaustão, deserto, deserto, deserto, deserto, deserto, deserto&#8230;</p>
<p>Pensei em Liz, em Cruz Alta, no meu cão, em Juan, nos amores intranqüilos, nas pessoas tristes da América, e pensei em como tudo aquilo iria, alguns meses após a chegada ao Brasil, sufocar e se enterrar embaixo do peso da realidade. E o deserto, nosso suor, nosso arremedo de casamento e nosso suave caminhar de mãos dadas não passariam de memória. Aos meus amigos, falarei de Liz com fingido desinteresse. Na praça central de Santa Cruz, procurarei um cão quando lembrar. Nas paredes, uma ou duas fotos ampliadas. Para sempre, a imagem de Liz na luz seca do deserto.</p>
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		<title>Solidão</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Oct 2009 01:46:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>juliabdantas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Solidão]]></category>

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		<description><![CDATA[A sala dos professores está lotada. Uma senhora gorda, modelo 54 judiado, entra com uma pilha de mapas. Mira a cafeteira e avança por cima da estagiária franzina, vencendo a distância a solavancos. Com a boca cheia de restos de bolacha água e sal, dispara entre os presentes: – Vocês já sabem da última? Menos [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=27&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position:absolute;left:-10000px;top:0;width:1px;height:1px;">A sala dos professores está lotada. Uma senhora gorda, modelo 54 judiado, entra com uma pilha de mapas. Mira a cafeteira e avança por cima da estagiária franzina, vencendo a distância a solavancos. Com a boca cheia de restos de bolacha água e sal, dispara entre os presentes:</div>
<div id="_mcePaste" style="position:absolute;left:-10000px;top:0;width:1px;height:1px;">– Vocês já sabem da última?</div>
<div id="_mcePaste" style="position:absolute;left:-10000px;top:0;width:1px;height:1px;">Menos de doze horas antes, a diretora do colégio João Baptista raspava o fundo do açucareiro para adoçar o seu café aguado, que era para ajudar a engolir as torradas de presunto, que eram sem maionese porque Ruth queria emagrecer. Sentia muito calor naquela noite. Deixou o café parado, esfriando, antes de tomá-lo. Contou os azulejos da parede enquanto pensava em uma boa novidade para o dia seguinte. Sabia que o Oliveira andava passando a mão nas coxas da Berenice às escondidas, mas pareceu-lhe notícia velha. Pensou em contar que o Souza andava perdendo dinheiro no jogo do bicho, tinha pedido adiantamento do salário, de joelhos, na sua sala. Mas, todo mundo na mesma pobreza, ninguém ia se surpreender com o Souza. Lembrou do Carlos, parece que ele tinha sido xingado por um aluno e quase chorou em aula, mas não tinha provas. Ele não contara a ninguém, por vergonha. A verdade é que todas as fofocas andavam entediando-a. E o novo professor da oitava série, o tal de Diniz, não chegava nem perto de fornecer material às bocas do povo. Ele no máximo levou algumas canetas para casa, mas ninguém se importa com canetas. Era um tremendo sem graça, o Diniz.</div>
<div id="_mcePaste" style="position:absolute;left:-10000px;top:0;width:1px;height:1px;">Os professores procuram papéis para remexer. Ninguém olha diretamente para Ruth, ela puxa uma cadeira para a ponta da mesa e apóia ali os cotovelos. Seus olhinhos brilham espremidos. Ela olha em volta, puxa a cadeira para frente em um pulinho e joga a mão no braço da Berenice, sentada ao seu lado. Berenice se vira. Ruth fala olhando para ela, mas em um volume que dispensaria microfones dentro de um auditório lotado.</div>
<div id="_mcePaste" style="position:absolute;left:-10000px;top:0;width:1px;height:1px;">– O Diniz não vai poder vir hoje porque se meteu em uma briga de bar ontem de noite. – Ela falava tão rápido que sobrepunha o início de uma palavra ao final da anterior – Uma coisa horrível. Tá com olho roxo e tudo. Foi se engraçar com uma menina de quinze anos e não é que o pai da guria tava ali do lado? Jogando sinuca. Pois é. Coitado do Diniz. Parecia tão certinho.</div>
<div id="_mcePaste" style="position:absolute;left:-10000px;top:0;width:1px;height:1px;">A declaração improvável acaba por chamar a atenção de todos os professores. “O Diniz?” “É do Diniz que ela está falando?” “Mas logo o Diniz&#8230;.”. As frases correm baixinho de ouvido a ouvido. Com todos em torno da mesa, Ruth dá os detalhes. A menina era loira. O pai tinha mais de metro e oitenta. O Diniz, pobre, apanhara de soco, de chute, de taco e de bolinha de sinuca. Restava pouco do infeliz. No HPS acharam que tinha sido assalto. O Diniz até concordou, não queria ter que contar a história verdadeira. Era um horror. Melhor nem comentar pelos corredores, não seria de bom tom. Se Ruth contava isso agora, é porque não queria constrangimentos para o Diniz quando ele aparecesse no dia seguinte todo rengo, olho roxo e aquela coisa. Os professores balançam a cabeça em afirmação: nem um pio a mais sobre o Diniz.</div>
<div id="_mcePaste" style="position:absolute;left:-10000px;top:0;width:1px;height:1px;">Ao lavar a caneca do café, Ruth pensou que o Diniz talvez merecesse alguma atenção. Ao espremer o detergente na esponja, pensou nos olhos do Diniz. Ao esfregar a marca de batom na caneca, imaginou os sapatos do Diniz. Ao deixar a água da torneira correr, lembrou a boca grossa e torta para a direita. Ao correr a toalha pela alça da caneca, conseguiu ver, à sua frente, o início da careca, um círculo atrás da cabeça, tinha até certo charme. Ao largar a caneca no armário, tinha tudo pronto na cabeça.</div>
<div id="_mcePaste" style="position:absolute;left:-10000px;top:0;width:1px;height:1px;">Foi até o telefone e buscou um número no caderninho azul.</div>
<div id="_mcePaste" style="position:absolute;left:-10000px;top:0;width:1px;height:1px;">– Oi professor, tudo bem? Estou ligando só para dizer que amanhã o senhor não precisa ir à escola, vamos ter uma programação especial para os alunos, uma série de palestras no auditório. Isso mesmo, fique em casa e descanse um pouco. Um abraço.</div>
<div id="_mcePaste" style="position:absolute;left:-10000px;top:0;width:1px;height:1px;">Já saindo da sala dos professores, Ruth hesita. No dia seguinte Diniz apareceria sem machucados, sorridente como sempre, sem uma mísera muleta ou um olho inchado. Era um passo arriscado. Ela conhecia o poder de um boato, mas isso talvez fosse um pouco demais. E, além de tudo, era a primeira vez que inventava um boato, em geral só os espalhava. Ruth podia, às vezes, se comportar como uma víbora, mas ainda tinha este ou aquele escrúpulo. E o Diniz, meu deus, ela se deu conta, nem merecia. Ruth se vira para os professores. Era necessário, mais que urgente, desfazer a bagunça. Elabora em quatro segundos a desculpa para desmentir a coisa toda. Bastava dizer que o Diniz, na verdade perdera a mãe, mas não queria que ninguém comentasse nada, então pedira à Ruth que inventasse uma história. Ela se perdera nos detalhes, pois que não estava acostumada a mentir, e fora longe demais. Então Ruth pediria que ninguém comentasse a respeito da mãe do Diniz e esquecessem a história da briga. Era a desculpa perfeita. Elaborada em quatro segundos, um recorde.</div>
<div id="_mcePaste" style="position:absolute;left:-10000px;top:0;width:1px;height:1px;">– Colegas, eu preciso dizer uma coisa.</div>
<div id="_mcePaste" style="position:absolute;left:-10000px;top:0;width:1px;height:1px;">Todos olharam imediatamente – Ruth tinha ganho créditos de atenção. E no momento em que aqueles olhos sedentos encararam as bochechas rosas de Ruth, ela só pôde dizer:</div>
<div id="_mcePaste" style="position:absolute;left:-10000px;top:0;width:1px;height:1px;">– Eu não ia contar, mas a menina, a de quinze, já tinha sido aluna do Diniz na quarta série.</div>
<p>A sala dos professores está lotada. Uma senhora gorda, modelo 54 judiado, entra com uma pilha de mapas. Mira a cafeteira e avança por cima da estagiária franzina, vencendo a distância a solavancos. Com a boca cheia de restos de bolacha água e sal, dispara entre os presentes:</p>
<p>– Vocês já sabem da última?<span id="more-27"></span></p>
<p style="text-align:center;">&#8230;</p>
<p>Menos de doze horas antes, a diretora do colégio João Baptista raspava o fundo do açucareiro para adoçar o seu café aguado, que era para ajudar a engolir as torradas de presunto, que eram sem maionese porque Ruth queria emagrecer. Sentia muito calor naquela noite. Deixou o café parado, esfriando, antes de tomá-lo. Contou os azulejos da parede enquanto pensava em uma boa novidade para o dia seguinte. Sabia que o Oliveira andava passando a mão nas coxas da Berenice às escondidas, mas pareceu-lhe notícia velha. Pensou em contar que o Souza andava perdendo dinheiro no jogo do bicho, tinha pedido adiantamento do salário, de joelhos, na sua sala. Mas, todo mundo na mesma pobreza, ninguém ia se surpreender com o Souza. Lembrou do Carlos, parece que ele tinha sido xingado por um aluno e quase chorou em aula, mas não tinha provas. Ele não contara a ninguém, por vergonha. A verdade é que todas as fofocas andavam entediando-a. E o novo professor da oitava série, o tal de Diniz, não chegava nem perto de fornecer material às bocas do povo. Ele no máximo levou algumas canetas para casa, mas ninguém se importa com canetas. Era um tremendo sem graça, o Diniz.</p>
<p style="text-align:center;">&#8230;</p>
<p>Os professores procuram papéis para remexer. Ninguém olha diretamente para Ruth, ela puxa uma cadeira para a ponta da mesa e apóia ali os cotovelos. Seus olhinhos brilham espremidos. Ela olha em volta, puxa a cadeira para frente em um pulinho e joga a mão no braço da Berenice, sentada ao seu lado. Berenice se vira. Ruth fala olhando para ela, mas em um volume que dispensaria microfones dentro de um auditório lotado.</p>
<p>– O Diniz não vai poder vir hoje porque se meteu em uma briga de bar ontem de noite. – Ela falava tão rápido que sobrepunha o início de uma palavra ao final da anterior – Uma coisa horrível. Tá com olho roxo e tudo. Foi se engraçar com uma menina de quinze anos e não é que o pai da guria tava ali do lado? Jogando sinuca. Pois é. Coitado do Diniz. Parecia tão certinho.</p>
<p>A declaração improvável acaba por chamar a atenção de todos os professores. “O Diniz?” “É do Diniz que ela está falando?” “Mas logo o Diniz&#8230;.”. As frases correm baixinho de ouvido a ouvido. Com todos em torno da mesa, Ruth dá os detalhes. A menina era loira. O pai tinha mais de metro e oitenta. O Diniz, pobre, apanhara de soco, de chute, de taco e de bolinha de sinuca. Restava pouco do infeliz. No HPS acharam que tinha sido assalto. O Diniz até concordou, não queria ter que contar a história verdadeira. Era um horror. Melhor nem comentar pelos corredores, não seria de bom tom. Se Ruth contava isso agora, é porque não queria constrangimentos para o Diniz quando ele aparecesse no dia seguinte todo rengo, olho roxo e aquela coisa. Os professores balançam a cabeça em afirmação: nem um pio a mais sobre o Diniz.</p>
<p style="text-align:center;">&#8230;</p>
<p>Ao lavar a caneca do café, Ruth pensou que o Diniz talvez merecesse alguma atenção. Ao espremer o detergente na esponja, pensou nos olhos do Diniz. Ao esfregar a marca de batom na caneca, imaginou os sapatos do Diniz. Ao deixar a água da torneira correr, lembrou a boca grossa e torta para a direita. Ao correr a toalha pela alça da caneca, conseguiu ver, à sua frente, o início da careca, um círculo atrás da cabeça, tinha até certo charme. Ao largar a caneca no armário, tinha tudo pronto na cabeça.</p>
<p>Foi até o telefone e buscou um número no caderninho azul.</p>
<p>– Oi professor, tudo bem? Estou ligando só para dizer que amanhã o senhor não precisa ir à escola, vamos ter uma programação especial para os alunos, uma série de palestras no auditório. Isso mesmo, fique em casa e descanse um pouco. Um abraço.</p>
<p style="text-align:center;">&#8230;</p>
<p>Já saindo da sala dos professores, Ruth hesita. No dia seguinte Diniz apareceria sem machucados, sorridente como sempre, sem uma mísera muleta ou um olho inchado. Era um passo arriscado. Ela conhecia o poder de um boato, mas isso talvez fosse um pouco demais. E, além de tudo, era a primeira vez que inventava um boato, em geral só os espalhava. Ruth podia, às vezes, se comportar como uma víbora, mas ainda tinha este ou aquele escrúpulo. E o Diniz, meu deus, ela se deu conta, nem merecia. Ruth se vira para os professores. Era necessário, mais que urgente, desfazer a bagunça. Elabora em quatro segundos a desculpa para desmentir a coisa toda. Bastava dizer que o Diniz, na verdade perdera a mãe, mas não queria que ninguém comentasse nada, então pedira à Ruth que inventasse uma história. Ela se perdera nos detalhes, pois que não estava acostumada a mentir, e fora longe demais. Então Ruth pediria que ninguém comentasse a respeito da mãe do Diniz e esquecessem a história da briga. Era a desculpa perfeita. Elaborada em quatro segundos, um recorde.</p>
<p>– Colegas, eu preciso dizer uma coisa.</p>
<p>Todos olharam imediatamente – Ruth tinha ganho créditos de atenção. E no momento em que aqueles olhos sedentos encararam as bochechas rosas de Ruth, ela só pôde dizer:</p>
<p>– Eu não ia contar, mas a menina, a de quinze, já tinha sido aluna do Diniz na quarta série.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/vidaparada.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/vidaparada.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/vidaparada.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/vidaparada.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/vidaparada.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/vidaparada.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/vidaparada.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/vidaparada.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/vidaparada.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/vidaparada.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/vidaparada.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/vidaparada.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/vidaparada.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/vidaparada.wordpress.com/27/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=27&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O pai e mãe dela</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Oct 2009 01:45:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>juliabdantas</dc:creator>
				<category><![CDATA[O pai e a mãe dela]]></category>

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		<description><![CDATA[Era para ser um sábado como qualquer outro. Eu saí de casa perto das duas, caminhei até o café a uma quadra da minha casa, sentei na minha mesa e pedi o almoço. Nos dias quentes sempre gostei de tomar sopas. O café era o único lugar no meu bairro que servia sopas no verão. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=25&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Era para ser um sábado como qualquer outro. Eu saí de casa perto das duas, caminhei até o café a uma quadra da minha casa, sentei na minha mesa e pedi o almoço. Nos dias quentes sempre gostei de tomar sopas. O café era o único lugar no meu bairro que servia sopas no verão. E eu devia ser o único que as tomava. É que eu sentia o caldo descendo pela garganta, o calor propagando-se por todo o corpo, o suor nascendo na nuca. Era minha íntima subversão.</p>
<p>Enquanto esperava o garçom, arrumei o saleiro, a pimenta e o queijo ralado da maneira mais agradável na mesa. Rescostei-me na cadeira e vi descendo a rua um homem alto e idoso, acompanhado de uma menina de uns quatorze anos. O homem parecia-se comigo, apenas mais velho. Mantinha as mãos nos bolsos da calça cinza e sua gravata às vezes ondulava contra o vento. A menina gesticulava muito e, a todo instante, prendia os cabelos loiros atrás da orelha. Era o tipo que falava com as mãos. Ela parou no centro da calçada, fez o homem voltar-se para ela e riscou no ar um enorme círculo que acabava em duas espirais, desenhadas pelas mãos que desceram até quase o chão.<span id="more-25"></span></p>
<p>Tentei, com uma leitura de lábios improvisada, adivinhar do que ela falava que tinha tamanha amplitude, mas não adivinhei nada. Foi então que a menina viu algo de muito excitante em uma vitrine e puxou o homem pela mão, mas o homem parou. Segurou a mão da menina. Puxou-a para perto. A menina assustou-se. O homem curvou o tronco. Colocou a mão no ombro esquerdo. A menina olhou para os lados. O homem caiu de joelhos. A menina gritou e ninguém se aproximou. O homem soltou a mão da menina. Eu corri até eles. Me ajoelhei ao lado do homem. Segurei sua cabeça. Fiz-lhe perguntas. Olhei para a menina. Ela me procurou dentro dos meus olhos mas pareceu não achar. Eu fiz parar um táxi. Carreguei o homem para o banco de trás. Sentei com ele. Mandei a menina ficar no banco da frente. Chegamos ao hospital em quatro minutos. Carreguei o homem para dentro. (Ele não se movia). Pessoas em branco jogaram-no na maca. Desapareceram no corredor comprido. Corriam os segundos. Os médicos iam. Voltavam. Nos ignoravam. A menina chorou ao me lado. Chorou no meu ombro. Chorou no meu colo. Dormiu, enfim, com a cabeça na minha perna. Os médicos voltaram. Olharam para o chão. Me perguntaram se era parente. A menina dormia. Menti que sim. A menina dormia na minha perna. Os médicos olharam para os papéis. Na minha perna já dormente, a menina ainda dormia. Os médicos sacudiram os papéis. A menina dormia. Os médicos disseram, os papéis é que diziam: foi um enfarto fulminante.</p>
<p>Aconteceu tudo muito rápido.</p>
<p>Quando ela acordou, espreguiçou-se, levantou os braços finos e esticou todos os dedos das mãos, depois girou os pulsos algumas vezes e finalmente me olhou com cara de pergunta. Para não responder, perguntei primeiro:</p>
<p>– Qual o teu nome?</p>
<p>Ela baixou os olhos para o chão.</p>
<p>– Então ele morreu?</p>
<p>– Não, os médicos ainda estão tentando salvá-lo.</p>
<p>– Você acha que morrer dói?</p>
<p>– Tenho certeza que não.</p>
<p>– Ainda bem. Eu sempre pergunto a ele se minha mãe tinha sofrido quando morreu, mas ele nunca me respondeu. Meu pai não é de falar muito, sabe?</p>
<p>Não quis acreditar que ela também não tinha mãe. Não perguntei, mas ela respondeu mesmo assim.</p>
<p>– Minha mãe morreu quando eu nasci. Os médicos sempre disseram que uma de nós teria morrido de qualquer maneira. Acabou que eu me salvei.</p>
<p>– Achei que ele era seu avô.</p>
<p>– Não, é jovem. Só tem cabelos brancos.</p>
<p>– Entendo.</p>
<p>– Meu nome é Joice.</p>
<p>– Eu sou Maurício.</p>
<p>Ela correu os olhos por toda a sala. Pude ver que se demorou mais no homem com muletas. Olhou-o de cima a baixo, depois só se concentrou novamente quando entrou uma senhora carregando uma criança que chorava. Perguntava-me tudo. Se aquelas pessoas estavam esperando alguém. Se os médicos eram bons. Se os doentes dali não iam passar suas doenças para os outros. Tinha preocupações no mínimo interessantes, a pequena. Perguntou-me se não era melhor que os doentes ficassem deitados. Queria saber se as pessoas da sala de espera esperavam muito. Perguntou-me se se podia dizer que ainda estavam vivos.</p>
<p>– Naturalmente – respondi em dúvida.</p>
<p>Conversamos tanto que cheguei ao ponto de esquecer que seu pai estava morto e aquela espera era inútil. Ela deitou-se novamente no meu colo e voltou a dormir. Acariciei seus cabelos por cerca de uma hora. Um dos médicos que dera a notícia apareceu e perguntou se gostaríamos de ver o corpo, de dizer adeus. Respondi que não. Estávamos bem. Quando eu ainda achava que ela dormia, ouvi sua voz sussurrar:</p>
<p>– Gostaria que minha mãe estivesse aqui.</p>
<p>Tomei consciência que devia contar-lhe de uma vez.</p>
<p>– Tenho certeza que ela está cuidando de você, esteja onde estiver.</p>
<p>Não conseguia entender porque tudo que eu dizia soava tão vazio quando toda minha força convergia para ela, quando meu sangue aquecia dois graus na vontade de fazer seu coraçãozinho pulsar como o das crianças que pulam corda, quando meu desejo, maior que todos os outros desejos do mundo, era o de lhe dar a certeza, fazê-la realmente entender que tudo ficaria bem. Ela bocejou.</p>
<p>– Você acha que existe algo após a vida?</p>
<p>– Eu tenho certeza.</p>
<p>Foi uma resposta mentirosa. E eu já não sabia mais o que dizer à menina.</p>
<p>– O que seu pai lhe dizia quando você perguntava se tinha valido à pena? – perguntei.</p>
<p>– Como assim?</p>
<p>Até então me parecia uma pergunta óbvia. Se eu vivesse às custas da morte de outra pessoa, me perguntaria a todas as horas se eu valia a pena, se deus fizera uma boa escolha. Minha curiosidade era apenas acerca da resposta do homem. Será que chorava, será que olhava para os lados, ou mandava-lhe se calar? Eu estava afundando em lodo. Apenas um insensível completo não teria a decência de ignorar sua curiosidade pelo bem de uma criança. E agora eu estava diante de uma adulta amargurada. Resolvi fingir que não percebera:</p>
<p>– Você sabe, quando você perguntava se ele preferia ter a esposa viva ao invés da filha, o que ele lhe dizia?</p>
<p>Ah, Deus, essa menina me perguntou até sobre meus bigodes como nunca perguntou algo desse tamanho para o pai? Ela não respondeu. Me encarava com pequenos olhos perplexos. Vi seus cílios se curvando para dentro.</p>
<p>– Nunca lhe ocorreu esta pergunta?</p>
<p>– Não até hoje. Me lembre de perguntar a ele mais tarde.</p>
<p>Soube naquele instante que havia arruinado sua vida.</p>
<p>Disse-lhe que lembraria e passei os dedos sobre seus olhos para que se fechassem. Vi seus pulmões encherem de ar, depois esvaziarem, senti sua respiração na minha perna. Observei-a até que sua boca abrisse lentamente e percebi suas pálpebras movendo-se. A menina sonhava ainda.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/vidaparada.wordpress.com/25/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/vidaparada.wordpress.com/25/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/vidaparada.wordpress.com/25/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/vidaparada.wordpress.com/25/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/vidaparada.wordpress.com/25/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/vidaparada.wordpress.com/25/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/vidaparada.wordpress.com/25/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/vidaparada.wordpress.com/25/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/vidaparada.wordpress.com/25/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/vidaparada.wordpress.com/25/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/vidaparada.wordpress.com/25/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/vidaparada.wordpress.com/25/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/vidaparada.wordpress.com/25/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/vidaparada.wordpress.com/25/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=25&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Prisioneiro</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Oct 2009 01:44:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>juliabdantas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Prisioneiro]]></category>

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		<description><![CDATA[Óculos novos fazem eu me sentir numa prisão. A partir do momento que eu saio da ótica com aquela armadura, digo, armação nova, já sinto um formigamento que começa na ponta do nariz. Depois o formigamento sobe em círculos até tomar conta da testa. Se alastra para as orelhas. A língua adormece. O pescoço se [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=23&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Óculos novos fazem eu me sentir numa prisão. A partir do momento que eu saio da ótica com aquela armadura, digo, armação nova, já sinto um formigamento que começa na ponta do nariz. Depois o formigamento sobe em círculos até tomar conta da testa. Se alastra para as orelhas. A língua adormece. O pescoço se contrai. O formigamento desce levantando os pêlos do peito. Revira o estômago. Faz qualquer coisa no pâncreas que ninguém sabe mesmo para que serve o pâncreas e quando chega nos joelhos causa uma tremedeira daquelas de quem está apaixonado e eu me dou conta que só andei até a esquina da quadra da ótica e ainda me falta atravessar a rua.<span id="more-23"></span></p>
<p>Respiro fundo.</p>
<p>Tiro os óculos, esfrego as lentes na manga da camisa e ponho de novo. Tento olhar em volta me acostumando com a elipse metálica que emoldura o mundo a partir de agora, mas não há jeito. Estou acostumado com um retângulo preto, como mudar de armadura, digo, armação, sem um treinamento antes?</p>
<p>A sinaleira abre e eu atravesso correndo, tropeço no meio fio. Os óculos novos não caem. São leves como penas, e firmes como uma mordaça.  Na frente de uma vitrine, vejo o meu reflexo do pescoço para baixo. Não reconheço meu rosto, com riscos metálicos contornando os olhos, a maldita fibra óptica, e não me sinto eu. Não sei quem eu me sinto, mas não me sinto eu. O moleque sem camisa vem e me pede um trocado enquanto remexe com o minguinho alguma coisa dentro do umbigo. Fico pasmo. Ele me reconhece? Ele sabe quem sou eu? Ele se sente eu, já que eu não me sinto eu e, por tabela, eu deveria me sentir ele? Estou enlouquecendo. Dou 25 centavos ao moleque e lhe peço que fique longe de mim.</p>
<p>Sigo caminhando, Cristina me espera e ela odeia atrasos. Estranhamente, ninguém parece se incomodar com a minha mudança absurda de paradigma, mas os cachorros me olham esquisito. Um vira-lata, preto manchado de marrom, manco de uma perna, me segue por uns cem metros, dependurando a língua entre os dentes e babando feito um louco. Começo a caminhar em zigue-zague para despistá-lo, mas ele persiste. Não sei mais como lidar com cães agora que os vejo dentro de uma elipse acinzentada. Cães dentro de retângulos pretos são minha especialidade, mas o que fazer com um cão no meio da mais nova tecnologia, que não pesa no nariz, que se ajusta às orelhas, que é leve, arrojado, moderno, discreto e mais quinze adjetivos que me disse a vendedora com dentes de café? Cães, assim como os óculos, não merecem tanta teorização.</p>
<p>Finalmente encontro uma carrocinha de cachorro-quente. Peço com duas salsichas sem ervilhas ou milho. Entrego os dois reais e largo o cachorro quente encostado na fachada de um prédio. Espero que o cachorro, o animal, se aproxime e se distraia com o cachorro, a comida. Saio dali depressa, na esperança que meus sapatos se confundam com outros sapatos e Billy nunca mais me ache. Dei o nome Billy ao cachorro, o animal.</p>
<p>De repente encontro Cristina. Olho para os lados. Eu já estava na frente do café onde deveria tê-la encontrado uma hora e meia atrás. Olho nos seus olhos e desconfio que ela nem notou os óculos novos. Me encho de felicidade, <em>ela</em> sabe quem eu sou. O coração palpita. Me abraço em Cristina e meu nariz gelado encosta na sua orelha. Ela não reage. Me afasto. Ela parece transtornada.</p>
<p>– Você está atrasado. Eu odeio atrasos.</p>
<p>Quase choro.</p>
<p>– É que eu saí da ótica e o formigamento não me deixava atravessar a rua e a sinaleira não abria nunca, nunca para mim, pelo menos, e, diabo, para que serve o pâncreas, não é mesmo? e ninguém, Cristina, ninguém se sentiria confortável numa elipse, nem mesmo os cães, eles gostam de linhas retas, mas mesmo antes do cão, o menino do umbigo saltado me pediu dinheiro, e eu achei que eu era ele, mas era eu quem dava o dinheiro então ele não podia ser eu e eu gastei mais com um cachorro que um ser humano, Cristina, gastei mais em um cachorro que em um menino, e, hahaha, eu literalmente gastei mais em um cachorro, porque, percebes, eu comprei um cachorro para um cachorro, e na vitrine eu vi meu corpo e acho que Billy nunca mais verá os meus sapatos e, Cristina, ah, meu bem, me desculpe. É que óculos novos fazem eu me sentir numa prisão.</p>
<p><em>- Para Marcelo Juchem, autor da primeira e última frase deste conto</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/vidaparada.wordpress.com/23/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/vidaparada.wordpress.com/23/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/vidaparada.wordpress.com/23/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/vidaparada.wordpress.com/23/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/vidaparada.wordpress.com/23/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/vidaparada.wordpress.com/23/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/vidaparada.wordpress.com/23/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/vidaparada.wordpress.com/23/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/vidaparada.wordpress.com/23/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/vidaparada.wordpress.com/23/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/vidaparada.wordpress.com/23/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/vidaparada.wordpress.com/23/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/vidaparada.wordpress.com/23/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/vidaparada.wordpress.com/23/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=23&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Esperança</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Oct 2009 01:43:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>juliabdantas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Esperança]]></category>

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		<description><![CDATA[Um dia você acordará e seus sapatos não lhe servirão. Não importa se você terá engordado ou se terá envelhecido e encolhido. Fato é que um dia você acordará e seus sapatos não lhe servirão mais. Você vai senti-los pressionando o dedão ou caindo pelo calcanhar, dará algumas voltas pelo quarto, olhará para o espelho [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=21&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um dia você acordará e seus sapatos não lhe servirão. Não importa se você terá engordado ou se terá envelhecido e encolhido. Fato é que um dia você acordará e seus sapatos não lhe servirão mais. Você vai senti-los pressionando o dedão ou caindo pelo calcanhar, dará algumas voltas pelo quarto, olhará para o espelho e enfim aceitará que não te servem. E o mais importante é o que você fará então. Você poderá teimosamente usá-los e encravar uma unha. Poderá furar a ponta. Usar uma palmilha. Poderá comprar outro. Ou poderá andar descalço. Seja como for, é uma escolha para o resto da vida. Ou, pelo menos, até o próximo dia em que você acordar e seus sapatos não estiverem ali.<span id="more-21"></span></p>
<p align="center"><strong>&#8230;..</strong></p>
<p>Guilherme lava a louça do café da manhã e Elisa procura as chaves do carro dentro da bolsa. Ele sai da cozinha e Elisa aparece com um sorriso triunfante sacudindo as chaves acima da cabeça. Ele vai até o quarto e põe os tênis. Ela larga as chaves em cima da televisão e cata as sandálias debaixo do sofá.</p>
<p>Daqui a pouco, Guilherme vai procurar as chaves que Elisa esqueceu onde pôs e ela calçará um par de tamancos.</p>
<p style="text-align:center;">&#8230;</p>
<p>Cícero é caixa da maior rede de supermercados do sul do Brasil. Mora com a mãe na vila Bom Jesus, gosta de vestir vermelho, toca o chão com a parte interna do calcanhar direito quando caminha e sonha em conhecer o Rio de Janeiro. No fim do dia, Cícero consegue levar para casa alguns dos pães que não foram vendidos na padaria do super. Quase sempre. Os pães não-vendidos são disputadíssimos entre os funcionários.<em> </em>Em dias de sorte, Cícero consegue um ou dois croissants.</p>
<p>Em um sábado pela manhã, Cícero vê entrar no supermercado um jovem casal. Ele usa jeans rasgado nos joelhos e camisa fora da calça. Cícero pensa que se aparecesse assim para o trabalho seria escorraçado pelo chefe. Já o cara de cabelo castanho liso é um cliente. Tem sempre razão. A moreninha ao lado dele tem os olhos um pouco saltados e a pele pálida. Acha-a bonita, acha que ela tem um jeitinho de quem gosta de ser mimada, pensa que ela deve gostar de cogumelos. Os cogumelos frescos do corredor cinco chegaram hoje, onze reais o quilo.</p>
<p>O casal some no primeiro corredor e reaparece uns dez minutos depois. A moreninha traz o cara pelas mãos até o caixa de Cícero. Pão árabe, presunto, rúcula, vinho. Cícero acompanha os olhos da menina que acompanham os produtos rolando na esteira. Olhos verdes. Cícero não gosta de olhos verdes, mas os dela até são bonitos. Quem paga é o castanho liso. Cícero deseja um bom dia que faz a moreninha sorrir e o castanho liso responder ‘pra você também’. Cícero olha para os tênis indo embora, um par de adidas bem cuidados embaixo da barra desfiada dos jeans. Cícero sabe o preço daqueles tênis, quantos meses levaria.</p>
<p>Cícero vai passar o resto do dia lembrando da moreninha, de sua boca entreaberta e seu cheiro úmido. Ela não comprou cogumelos, talvez o cara que não goste de cogumelos. Cícero vai sair do trabalho às cinco e ir de ônibus para casa. Vai cumprimentar a mãe na frente da TV, vai caminhar até o quarto e colocar cinco reais dentro de uma caixa de sapatos decorada com uma foto de jornal do jardim botânico de Curitiba, que ele acha que é do Rio.</p>
<p style="text-align:center;">&#8230;</p>
<p>Guilherme e Elisa saem do super carregando uma sacola cada um. Entram no carro e largam-nas no banco de trás.</p>
<p>– O cinto, Elisa.</p>
<p>– Ah. É.</p>
<p>Elisa põe para tocar um CD gravado. Urban driving. Guilherme imagina porque todas as coletâneas de Elisa têm nomes em inglês. Mas não pergunta. Ela tem o braço apoiado ao lado do vidro, olhando para fora, o pé esquerdo descalço em cima do banco. Ela tem uma beleza gráfica mesmo nos momentos mais banais. Uma beleza que prende; que rodopia em um chacoalhar de lenços coloridos; que encrava as unhas nas coxas.</p>
<p>Guilherme vê o rosto de Elisa passando rápido pelos edifícios da cidade e lembra do rosto dela contra o escuro do mar em uma noite fria de outono. Os dois se conheciam havia poucos dias e Guilherme achava-a uma perfeita estabanada, mas inteligentíssima da maneira mais ingênua que se poderia ser. Estavam passando um feriadão em Pinhal na mesma casa, de um amigo em comum. Saíram uma noite para jantar em um quiosque à beira mar, pediram pizza, tomaram cerveja. Sentaram na areia lado a lado.</p>
<p>– Você sabe por que as ondas fazem espuma quando estouram? – ela perguntou.</p>
<p>– Sei, claro. É alguma coisa com as algas. Ou com o sal. Ou os peixes.</p>
<p>– Se você não sabe, – ela sorriu ao olhar para ele – não precisa inventar.</p>
<p>Aquela noite mais tarde, o vento do nordeste veio carregando areia e Elisa colocou os braços para dentro da camiseta, trouxe os joelhos para perto do peito e ficou encolhida feito uma bolinha, olhando o mar. Guilherme se virou para o lado e por um segundo esqueceu de respirar vendo aquela menininha congelando sem reclamar, esfregando os braços por baixo da camiseta. Teve vontade de se enrolar em Elisa e virar espuma branca de mar, boiando para sempre no vaivém da água salgada. Era tudo tão terno que sentiu que podia morrer. Mas uma morte pequenininha, que não doesse muito e nem matasse muito. Só uma mortezinha para poder dizer, poeticamente, que morreu ao lado da amada.</p>
<p>Guilherme hoje lembra desse dia e pensa que talvez, três anos depois, ele conheça Elisa tanto quanto o momento em que a quis espuma. Não sabia se tinha pouco agora, ou se tinha tudo desde o início. E se fosse tudo?</p>
<p style="text-align:center;">&#8230;</p>
<p>Estacionaram o carro na frente do prédio onde moravam juntos havia seis meses. Elisa abriu a porta do carro e tentou sair, só então parando para tirar o cinto. Guilherme já pegava as sacolas e cumprimentava Márcio, o guardador de carros da rua Filadélfia. Volta e meia, Elisa aparecia com brinquedos de plástico para os três filhos dos quais Márcio sempre falava, ou alguma roupa para a mulher dele. Nesse dia, Guilherme lhe deu um All Star meio encardido. Elisa tirou da bolsa uma blusa vermelha.</p>
<p>Márcio já tinha aceitado o tênis, mas achou que não era certo aceitar a blusa porque ninguém a usaria. Sentiu um pouco de vergonha em ter que se explicar, mas também, não era assim tão mau. Achou que estava na hora de descarregar.</p>
<p>– Não precisa, não, dona, porque minha mulher foi embora faz dois dias.</p>
<p>– Como assim, foi embora? – Guilherme surpreendeu-se.</p>
<p>– Ela disse que eu entrava na linha ou ela ia para a casa da mãe com as crianças. Anteontem eu cheguei, e ela tava pegando as roupas dos guris e botando numa mala. Aí eu peguei tudo de volta e disse que se ela queria ir, ia sozinha, porque lugar de filho é na casa da família. – A voz saía tranqüila, quase dançando entre o sorriso de dentes amarelos.</p>
<p>– Bom, talvez ela volte daqui um tempo. Com saudade de vocês – disse Elisa.</p>
<p>– Mas que nem tente. Mulher que passa quarenta e oito horas fora de casa perde o lugar na casa e no coração da família.</p>
<p>– Mas imagina, é sua mulher. É igual a você, seu Márcio, mesmos direitos.</p>
<p>Guilherme esperava Elisa com a porta do prédio aberta. Márcio a viu entrando e voltou para o outro lado da rua onde fazia sombra. Ele achava graça de implicar com essas meninas novas, cheias de si. Para ele, seriam sempre meninas, mulheres de verdade não eram assim, passando o dia todo fora, trabalhando mais ou tanto quanto o marido. Mulheres não têm que se preocupar em ganhar dinheiro para poderem se preocupar em criar bons filhos. E mulheres de verdade não precisam de roupas coloridas e sapatos altos, as mulheres de verdade são bonitas mesmo num vestidinho de pano simples, mesmo com o rosto suado de fim de dia, mesmo com o cabelo emaranhado e as mãos ásperas de detergente. Mulher bonita de verdade é mais bonita sem nada do que cheia de camadas. Márcio senta no meio fio e troca as havaianas pelos tênis.</p>
<p>No anoitecer desse mesmo dia, Márcio vai chegar em casa e se atrapalhar fazendo comida para os filhos. Quando a panela de arroz começar a queimar, Glória vai aparecer e desligar o fogo. Márcio vai olhar para Glória, e, mesmo tendo passado setenta e duas horas, vai pedir que ela volte e que ela fique, por favor. Glória vai dizer que sim, e eles vão tomar sopa no jantar.</p>
<p style="text-align:center;">&#8230;</p>
<p>Guilherme liga o som da sala enquanto Elisa abre as sacolas na cozinha. Eles comem ouvindo Tom Waits e deixam a louça para amanhã. Elisa toma banho pensando se sai do banheiro enrolada na toalha ou de camisola. Ela passa o sabonete imaginando as mãos de Guilherme e se decide pela toalha. Sai do banheiro deixando os pingos d’água escorrerem do cabelo pelas costas e pára na porta. Fica olhando para Guilherme que lê na cama e pensa como podiam ter passado anos e ela ainda não entender aqueles olhos.</p>
<p>Guilherme tem os olhos assustados, ela pensa. Não são bem assustados, são olhos de espanto. Olhos de assombro. E volta e meia ele olha para baixo, de certo procurando nos sapatos um cadarço desamarrado ou uma pedrinha para chutar. Usa óculos, que escorregam para a ponta do nariz, e olha para as coisas, para qualquer coisa, como se fosse a primeira vez que as visse. Era isso. Ele tem os olhos de quem está sempre timidamente deslumbrado.</p>
<p>Elisa se sentia deslumbrante sob aquele olhar. Mas começava a duvidar do efeito que causava nele, quando Guilherme parecia se deslumbrar em igual intensidade com sua presença ou quando caía chuva em um dia de sol.  Ela se encosta na parede, pergunta se pode apagar a luz tentando insinuar poses embaixo da toalha. Guilherme responde “claro”, larga o livro na mesa de cabeceira e se esconde nas cobertas.</p>
<p>Guilherme dorme rápido e Elisa caminha até a poltrona no canto do quarto. Senta e acende um cigarro. Elisa fuma Free mentolado quando Guilherme não está olhando. Ela observa o sono tranqüilo de Guilherme e pensa nos três anos passados, imaginando como seriam os próximos três. Ela enxerga em cores sépia, como se o futuro tivesse acontecido há muito tempo atrás. Deixa-se hipnotizar pelo lençol que sobe e desce acompanhando obediente a respiração de Guilherme. Até que sente frio no corpo nu e volta para a cama.</p>
<p style="text-align:center;">&#8230;</p>
<p>O dia seguinte é domingo e Elisa e Guilherme saem de casa para almoçar com a família dela. Vão a um buffet, juntam quatro mesas pequenas e ali se acomodam as dez pessoas. O tio Alberto, que ficou viúvo há mais de ano, pede uma jarra de vinho. O tio Alberto bebe todos os dias e já quebrou três ossos ao cair embriagado. O tio sempre envergonha a família nessas reuniões. Não é lá muito querido pelos familiares.</p>
<p>Mas hoje Alberto está calado. Come apenas metade do seu pedaço de carne, depois se concentra no vinho. Ele vez em quando respira fundo, deixando o ar sair em um “ai, ai” agudo e inaudível. Está preocupado. Alberto tem certeza que logo irá bater as botas. Está triste. Triste porque é velho e sozinho, porque sua mulher morreu, porque ele teve a sorte de viver mais mas não aproveitou o tempo, porque ele já não enxerga muito bem nem ouve muito bem e tudo que ele faz mata um pouco, e cansa um pouco, e quebra um pouco, e arrebenta um pouco de si mesmo e do fio que ainda o segura à vida.</p>
<p>Alberto faz perguntas a Elisa e Guilherme. Casamento, filhos, vocês são jovens, façam as coisas. Alberto pergunta de viagens, planos. Eles respondem com sorrisos fugidios e “não seis” sincronizados. Alberto se entristece mais. Por essas coisas que morrem antes de nascer. Pelas pessoas que não têm mais ânimo nem âmago.</p>
<p>À uma da tarde, logo depois do almoço, Alberto vai sair do restaurante e pegar um táxi até o cemitério São Miguel de Almas. Ele vai se arrepender de não ter levado um lírio à Eulália, sua flor preferida, que enfeitava a mesa da sala nos dias de primavera. Alberto vai caminhar entre os corredores de gavetas que são tão deprimentes porque são falsos. Alberto vai pensar que um lugar com milhares de mortos empilhados deveria ser aterrador, e que aqueles jardins quadrados e túmulos com cadeado só fazem tudo ficar estéril e insignificante como flores de plástico. Mas Alberto vai seguir pelos corredores e vai comprar um túmulo para si mesmo em doze prestações.</p>
<p style="text-align:center;">&#8230;</p>
<p>Guilherme e Elisa chegam no cinema em cima da hora. Eles compram os ingressos e entram na sala atrasados. Sentam sem prestar atenção ao filme. Guilherme segura a mão inerte de Elisa e entra em transe tentando dobrar suas unhas. Elisa olha para Guilherme e ele nunca lhe pareceu tão desencantado. Voltam para casa depois de tomar café e passam a tarde ocupados demais com seus trabalhos.</p>
<p>À noite, Guilherme e Elisa deitam na cama olhando para o teto acinzentado. Guilherme está mordiscando as pontas dos dedos finos de Elisa, que vira o rosto para a parede e tenta fazer com que ele não ouça sua respiração. Elisa está chorando em soluços presos, que a fazem perder o ar de vez em quando e a forçam a puxá-lo num ruído mais alto que os soluços que ela tenta evitar. Como quem quase se afoga. Guilherme ouve e diz:</p>
<p>– Eu sei que você está chorando.</p>
<p>– Você acha que a gente tem jeito?</p>
<p>– As coisas, Elisa – ele se vira de lado e toma ar – nem sempre são tão simples assim.</p>
<p>– As coisas – ela passa a mão debaixo dos olhos – são sempre simples assim.</p>
<p>Os dois lamentam em silêncio os diálogos curtos. Elisa vê no teto, enquanto Guilherme vê nos cabelos escorridos de Elisa, se apagarem todas as viagens que não fizeram, as noites que não saíram, os filhos que não nasceram, suas vidas não vividas.</p>
<p>Na manhã do dia seguinte, Elisa vai levantar cedo, vai vestir a roupa do dia anterior e sair de casa. Ela vai faltar o trabalho, vai comprar um tênis confortável e procurar um apartamento novo. Guilherme vai fingir dormir ao ver Elisa levantar e só vai sair da cama bem mais tarde. Ele vai procurar suas meias verde-escuro e não as encontrará. Guilherme passará o resto do dia olhando para os próprios pés, que estarão apoiados na mesinha de café no meio da sala.</p>
<p>Mas, por enquanto, só por enquanto, enquanto lá longe Cícero conta notas de cinco reais, enquanto Márcio olha as costas da mulher curvadas sobre a pia, enquanto Alberto desenha um lírio, fora de foco, em uma folha pautada, Elisa e Guilherme querem deitar lado a lado e torcer para que a noite dure um pouco mais dessa vez.</p>
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		<title>Espirros</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Oct 2009 01:43:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>juliabdantas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Espirros]]></category>

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		<description><![CDATA[(Dizem que uma pessoa pode morrer se trancar um espirro. Uma veia importante pode estourar e dar início a uma hemorragia. Eu tenho rinite crônica. A cada dia eu passo por aproximadamente 80 situações de risco de vida. Isso porque eu não sei espirrar. Não me ensinaram. Me diziam que era feio espirrar alto então [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=19&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>(Dizem que uma pessoa pode morrer se trancar um espirro. Uma veia importante pode estourar e dar início a uma hemorragia. Eu tenho rinite crônica. A cada dia eu passo por aproximadamente 80 situações de risco de vida. Isso porque eu não sei espirrar. Não me ensinaram. Me diziam que era feio espirrar alto então até hoje eu prendo o nariz. E toda vez eu imagino que alguma veia lá dentro está ficando fraca, cada vez mais fraca, esperando o dia de explodir e sangrar até que eu morra. Que escrevam na minha lápide: Aqui jaz Gustavo Torres, morto de espirro.)<span id="more-19"></span></p>
<p>Ele era o que se podia chamar de uma pessoa sem rótulos. Não que isso fosse necessariamente bom. Ele era como aqueles garrafões de vinho que a gente nunca sabe a procedência. Pode nos deixar alegre por uma noite inteira ou nos fazer vomitar por uma semana. Ele se chamava Gustavo. Tinha os olhos castanhos mais azuis que eu já vi. Passava uma sensação estranha quando me olhava, como achar um poema na calçada ou abrir um panfleto de proteção aos animais e cair de dentro um cartão de uma churrascaria. A gente não sabe muito bem o que significa, mas sabe que significa alguma coisa.</p>
<p>(Quando vi Ana senti medo. Sabia que eu deveria me aproximar, não sabia como. Dei doze voltas pelo bar, tomei cinco doses de gim, fumei sete cigarros e espirrei quinze vezes. Me senti leve. Fui até ela.)</p>
<p>A primeira vez que vi Gustavo foi em um bar meio deprimente. Aqueles bares que seriam ainda mais deprimente se fossem escuros então colocam luzes ofuscantes e algumas mesas de sinuca por dez reais a hora. A primeira vez que vi Gustavo, ele estava curvado para a frente, os cabelos saíam de sua cabeça completamente desordenados e ele não parecia se importar muito com a rebeldia de seus pêlos. Mesmo sua barba crescia em pequenos chumaços, deixando lacunas pelo rosto, como uma ovelha mal tosada. Logo depois ele se aproximou e sentou na minha mesa.</p>
<p>(As mulheres sempre me pareceram fascinantes. Eu tive poucas mulheres na vida, a maioria delas é que me teve. Eu sobrecarrego as mulheres com informação. Eu derramo em cima delas minhas idéias, meu passado, meus sonhos. Derramo em cima delas todas as minhas conclusões estúpidas sobre a vida, todas minhas frustrações e piadas sem graça. Como se não fosse o suficiente eu derramo nelas a minha bebida. As mulheres sempre me levam a beber, e a bebida me deixa com as mãos tremendo mais que o de costume. Depois, quando me dada a chance de passar a noite com uma mulher eu derramo nela todo meu sêmen, minha tesão, meu suor e minha saliva. E então me sinto vazio.)</p>
<p>Aquela noite quase só eu falei. Gustavo me ouviu pacientemente e me olhava como se tivesse uma pergunta a fazer mas ainda não soubesse qual era. Ele bebia demais e tinha as mãos geladas tremelicando na mesa. Pensei na barba e ri. Ele se assustou com o meu riso e apagou rápido o cigarro, os olhos arregalados, a boca meio aberta, olhou para baixo e ficou imóvel. Eu o levei para minha casa e deixei-o no sofá. Quando acordei, ele estava sentado como se nem tivesse deitado.</p>
<p>– Como é que você está?</p>
<p>– Cheio.</p>
<p>Gustavo nunca me disse muita coisa e eu nunca compreendi muito bem o pouco que ele falava. A verdade é que ele me irritava, nada me irritava mais que os espirros do Gustavo e aqueles lenços de papel que ele tinha por todos os cantos dele mesmo. Mas existia algo ali, que não estava em mim, nem estava nele, era algo que ocupava o espaço entre nós, algo tão terrível e sufocante que nós passávamos o tempo todo juntos, o mais perto possível, para não criarmos mais espaço para essa coisa.</p>
<p>Não sei quantos dias passaram até a primeira vez que dormimos juntos. Sei que ele não tinha saído da minha casa desde o primeiro dia em que chegou. Não sei se eu ainda tinha o meu emprego, nem se ele tinha o dele. Não sei se foi por desejo de sentir a pele um do outro ou se foi por não agüentarmos mais sentir nossas roupas. Sei que ele nunca gozou em mim. Ele me dava quantos orgasmos eu agüentasse, mas não queria nenhum. Eu achava que talvez fosse uma doença e fazia perguntas que ele não respondia. Ele se irritava e começava a se vestir e passar as mãos no cabelo nervosamente e eu só pedia não vai para longe. Ele nunca ia. Gustavo tinha um beijo seco e gosto de ameixa.</p>
<p>(Eu me entrelacei em toda beleza que Ana pôs ao meu redor. A todas as mulheres que eu tive antes eu pedia liberdade e elas nem sabiam que eram minhas donas. Eu me algemava e escondia a chave para ter uma desculpa para sair do mundo e todas suas coisas que me invadiam. Ana ficou por perto só por querer. Ana tinha pureza saindo pelos poros. Depois de cada noite de sexo com Ana eu olhava para o seu corpo dormente e me acalmava saber que ali não ficara nada de mim.)</p>
<p>Gustavo via em mim coisas que não estavam lá. Mas ele não conseguia olhar para si mesmo. A verdade é que não sei o que eu vi nele. Perdi os parâmetros de comparação. Não consigo lembrar de nada que veio antes de Gustavo.</p>
<p>(Ana tinha maravilhas que nem ela conhecia. Só eu. Só eu. O explorador das cavernas de Ana e seus cristais. Ela me ensinou a ver. Me ensinou que uma mulher pode levar um homem a loucura. E na maioria das vezes, leva.)</p>
<p>Ele dormia pouco. Suspeito que nem dormisse mais. Quando ia para a cama se deitava de lado, o corpo encolhido, segurando o queixo entre o polegar e o indicador. Se balançava para os lados como se estivesse embalando a si mesmo. Os olhos dilatados só pareciam vivos quando eu caminhava pelo quarto e ele me acompanhava. Se me sentava, ele me olhava por alguns segundos e depois desaparecia de novo.</p>
<p>Eu voltei a sair de casa durante o dia. Eu passava o tempo, nada mais. Me distanciava daquele olhar controlador que o Gustavo tinha sem saber. Era impossível ser livre diante dele, era impossível mudar o tom de voz, tirar os pés do chão ou rir alto, porque podia perder o encanto. Eu não podia perder o encanto. Não podia ir embora. Eu não queria perder o encanto.</p>
<p>Quando eu chegava em casa Gustavo sempre havia feito algumas pequenas mudanças. Primeiro tirou o tapete da sala, o carpete do quarto e em poucos dias a casa não tinha mais nada cobrindo o chão em parte alguma. Então foram os lustres. Em uma tarde todas as lâmpadas ficaram penduradas em fios que saíam direto do teto.</p>
<p>Tudo que o corpo agora magro e fraco do Gustavo conseguira tirar dali fora parar na rua e depois juntado pelos garis. Restavam apenas os móveis, a geladeira, o fogão e por um motivo qualquer ele poupara as almofadas e os colchões. Foi então que ele começou a desfiar o que restava do nosso improvável lar. Eu o encontrava no meio da madrugada, agachado diante do grande armário do quarto, arrancando os trincos, puxando parafusos com os dentes, tirando o verniz com as próprias unhas e, em volta dele, diversos montinhos de pó, sujeira, lascas de madeira e metal, que ele juntava com as palmas da mão e depois recolhia com a camisa e jogava da janela. Quando. Ele definhava junto com a casa.</p>
<p>(Ana era uma visão. Uma aparição de luz que me era concedida por momentos. Ela saía, ia para a rua e voltava para mim. Ana tinha coragem, ela sabia que eu não queria sair, eu não tinha o que fazer lá fora, seria doloroso para mim, então ela ia. Ela saía por nós. Ana capturava o brilho e o calor do sol e trazia para mim, ela vinha envolta em luz branca e mais tarde, quando o brilho estava gasto ela saía para buscar mais.</p>
<p>Enquanto ela não estava do meu lado eu limpava tudo em que Ana colocaria as mãos. Tirava dali tudo que não fosse digno dela e deixava tudo vazio porque nada é digno dela e ela preenche tudo e a presença dela ocupa todo espaço. Eu mesmo me sentia apertado contra as paredes quando Ana tomava conta do lugar. Era necessário tirar tudo dali e depois demolir as paredes.)</p>
<p>Ele não bebia mais, também não fumava, nem espirrava. Fazia dois dias que eu não ouvia sua voz quando ele me pegou pelo pescoço e me prendeu contra a parede. Eu estava saindo da cozinha e deixei cair os copos que tinha na mão. Os olhos dele faiscavam que não se podia ver que expressão tinham no fundo. Ele passou mais de meia hora com a mão esquerda quase me tirando o ar e a mão direita secando as minhas lágrimas enquanto me contou toda sua vida. Aos berros.</p>
<p>Depois me soltou, caiu no chão e começou a revirar os cacos de vidro e me dizia você sente a explosão dentro de mim, Ana? você sente tudo que está dentro de mim? Ele tinha as mãos dilaceradas e continuava procurando um caco maior enquanto eu gritava o nome dele e o chutava para longe dos copos.</p>
<p>(Foram 32 chutes até que ela conseguisse me deixar inconsciente. Eu sei porque contei os hematomas. Quando acordei ela não estava aqui, eu tinha na mão o vidro perfeito para cortar quantas veias conseguisse antes de desmaiar e me esvaziar por inteiro. Mas eu precisava que Ana estivesse aqui. Ela precisa ver que de mim não restará nada e que eu morrerei puro como ela. Acho que faz quase dois anos que Ana saiu. Eu tenho jogado fora tudo que ainda estava dentro da casa. Quando ela voltar estarei eu e meu caco de vidro apenas, e depois que eu for, ela vai poder viver aqui como ela merece. Sem nada. Só ela. Só ela. Assim que ela voltar. Que escrevam na minha lápide: Aqui jaz Gustavo Torres, morreu por Ana. Assim que ela voltar.)</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/vidaparada.wordpress.com/19/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/vidaparada.wordpress.com/19/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/vidaparada.wordpress.com/19/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/vidaparada.wordpress.com/19/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/vidaparada.wordpress.com/19/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/vidaparada.wordpress.com/19/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/vidaparada.wordpress.com/19/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/vidaparada.wordpress.com/19/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/vidaparada.wordpress.com/19/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/vidaparada.wordpress.com/19/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/vidaparada.wordpress.com/19/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/vidaparada.wordpress.com/19/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/vidaparada.wordpress.com/19/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/vidaparada.wordpress.com/19/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=19&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Felicidade</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Oct 2009 01:42:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>juliabdantas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Felicidade]]></category>

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		<description><![CDATA[A primeira carta que recebi de Pedro foi duas semanas após sua partida para o Paraná. Nunca escreveu o endereço de remetente, dizia que não queria jamais ser encontrado. Ele largara um bom emprego e um alto salário para viver em um pequeno hotel no meio da natureza. Lá conheceu Leda. Imagino que foi por [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=17&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A primeira carta que recebi de Pedro foi duas semanas após sua partida para o Paraná. Nunca escreveu o endereço de remetente, dizia que não queria jamais ser encontrado. Ele largara um bom emprego e um alto salário para viver em um pequeno hotel no meio da natureza. Lá conheceu Leda. Imagino que foi por causa dela que passou a me escrever, contando-me as pequenas particularidades de sua vida a dois. Pedro nunca tivera um relacionamento longo, acho que precisava dividir as novidades. De minha parte, apreciava a correspondência. Entre meus e-mails de trabalho, as chamadas perdidas no celular, os bips e apitos dos eletrodomésticos e a salvação do ar condicionado, receber uma carta social era um anacronismo inspirador. Cheguei a criar o hábito de abrir uma garrafa de vinho para ler as cartas de Pedro.<span id="more-17"></span></p>
<p>“Hoje tive um dia tempestuoso. Logo pela manhã, após o café, eu estava de pé à frente da janela enquanto Leda contava algo a respeito de sua infância. Era uma história que envolvia sua irmã, algum brinquedo, possivelmente uma boneca, e um gato. Tenho certeza a respeito do gato pois ela terminou seu relato dizendo “Eu odeio gatos” engrossando a voz no verbo: eu <em>odeio</em> gatos. Chamei-a até a janela “Então você vai adorar ver isso” . Ela se aproximou e eu apontei um gato preso no topo de uma árvore, pequeno e cinza, ele caminhava até as pontas dos galhos sem coragem de pular. Sua reação foi um grito “Ora, seu monstro, como pode se divertir às custas de um gatinho?” Saiu do quarto correndo. Ouvi seus passos escada abaixo e suas súplicas à Senhora Heloísa para que chamassem os bombeiros. Horas se passaram, Luís, horas de minha paciência, até que o zelador tirasse o gato de cima da árvore.</p>
<p>Leda voltou ao quarto ainda me olhando como se eu fosse um sádico. Me virei na cama (eu havia retornado à cama quando ouvi seus passos no corredor, não queria que ela soubesse que eu observara tudo pela janela) e ataquei “Achei que você odiasse gatos”. Ela me corrigiu “É claro que não, que tipo de pessoa odiaria gatos desta maneira?”.</p>
<p>Ah, meu amigo, se debaixo do travesseiro eu encontrasse uma pistola juro que teria feito uma loucura. Como podem as mulheres se contradizerem tão despudoradamente? Você, que sempre andou acompanhado, me conte como conviver com seres que dispensam qualquer tipo de coerência. Que péssimos (ou geniais) políticos seriam as mulheres. Mas perdoe, estou um pouco nervoso e divago.</p>
<p>O que pretendia contar é que apenas algumas horas depois do episódio do gato ela passou a me fazer perguntas sobre minha casa no interior do estado, aquela pequena casa na serra, onde passamos o verão de 97 &#8211; mas você já deve ter esquecido. Não importa. Ela me perguntava e eu dizia-lhe que poderíamos ir até lá no próximo inverno, beber vinho à frente da lareira, enrolados em cobertores e vendo algum filme (não me arrisquei a sugerir um filme pois ela é apaixonada por comédias românticas e fã de cinema alemão). Contei dos queijos, do entardecer lilás, disse que comeríamos dúzias de biscoitos de mel cobertos com açúcar.</p>
<p>“E pinhões” ela completou “é imprescindível que tenhamos pinhões, o inverno não é inverno sem eles”. Tive que falar de minha alergia a pinhões. Você bem sabe que basta um para que minha garganta inche, bolotas vermelhas cubram meu pescoço e eu fique sem respirar. Ela não hesitou “Então esquecemos os pinhões, não são assim tão importantes”.</p>
<p>De imprescindíveis a não-importantes. A inconstância das mulheres passa de característica mais abominável à condição de apaixonante quando usada a nosso favor. “Talvez alguns amendoins” eu sugeri comovido. Mas ela fez uma breve, quase imperceptível careta de nojo “Oh, não, detesto amendoins” disse num muxoxo.</p>
<p>Me senti o ser mais desprezível da Terra por privar-lhe de pinhões e ainda oferecer-lhe horrorosos amendoins. Mas é claro, logo passou. Os encantamentos femininos são tão efêmeros quanto suas opiniões.”</p>
<p>Sua visão das mulheres era totalmente nova para mim. Acredito, era totalmente nova para ele também. Em suas cartas, teorizava tanto a respeito de sua relação que por vezes acreditei tratar-se de uma piada, uma Leda que Pedro inventara para não ter que viver sozinho no meio do mato, no maior tédio de sua vida, mas orgulhoso demais para admitir que fizera uma bobagem. Após 42 anos vivendo em uma cidade grande, era claro que o ar puro não lhe faria bem. Se suas reflexões não eram as mais plausíveis, pelo menos me divertiam. A princípio, divertiam também a minha mulher. Mas logo fui obrigado a esconder dela as novas cartas. Marília tinha começado a me cobrar a mesma atenção e interesse que Pedro parecia conceder a Leda. Por mais que eu clamasse por compreensão – as cartas eram fragmentos da vida deles, por certo que passavam a maior parte dos dias aborrecendo-se com insetos ou cabelos na pia – Marília chegou a me pedir que lhe escrevesse cartas. Dei-lhe um cartão sabiamente acompanhado de uma pulseira e nunca mais a deixei abrir a caixa do correio. Seis meses após a primeira carta, Pedro enfrentava problemas.</p>
<p>“Tive que gritar com Leda hoje. Não imaginas o quanto me doeu. Mas não se pode tratar uma mulher com sensibilidade demais porque ela o achará um idiota, um perfeito e infalível fraco. Por outro lado, é comum, e até aconselhável, que se trate uma mulher com absoluta estupidez. A mulher gosta de ser covardemente reprimida, pois tende a se ver pelos olhos dos outros. Na sua lógica irracional, pensa que se um homem a oprime é porque sente medo dela, e em última análise ela se vê como uma mulher forte demais para um homem suportar. No fim, vê como um elogio aquilo que é pura canalhice. Sorte daqueles que são verdadeiros crápulas. Coitado sou eu, e creio, se bem o conheço, que você também, Luís. Somos dois incapazes de despertar grandes paixões, pois que as paixões só nascem de algum tipo de violência. É por isso que luto para tratar Leda com uma brutalidade comedida, tanto quanto me permite meu caráter.”</p>
<p>Algumas semanas depois, Pedro me ligou pela primeira vez. De tudo que disse, só compreendi que estava bêbado e não conseguia falar. No dia seguinte liguei para o número do qual ele havia ligado. Era um bar. Depois de muita conversa, o sujeito que atendeu o telefone lembrou que um homem alto, loiro e de choro escandaloso tinha caído bêbado no chão do banheiro na noite anterior. O sujeito me contou que expulsaram-no à sarjeta, mas talvez ele ainda estivesse lá e perguntou se eu gostaria que ele olhasse. Sim, eu gostaria muito. Em alguns minutos Pedro atendeu o telefone perguntando onde eu estava. Disse que estava onde sempre estive, no meu apartamento em Porto Alegre. Perguntou se Leda estava comigo. É claro que não. Pedro suspirou:</p>
<p>– Bem, se não está com você, então não sei onde estará. Ela me deixou ontem. Não acredito que vá voltar. Você sabe como são as mulheres.</p>
<p>Mandei-o para casa tomar um banho e ficar longe da bebida. Não podia compreender como Pedro estava se acabando em bares, dormindo na rua, inconsciente e despedaçado por uma mulher. Como podia ter se tornado tão irracional e vulnerável? Não conhecia aquele Pedro desequilibrado, mesmo quando ele deixara tudo em nome da vida natural, percebia em seus olhos uma certeza firme, um equilíbrio interno que agora se partira por uma mulher de maneira incompreensível.</p>
<p>Alguns dias depois recebi pelo correio a menor das cartas de Pedro, dizia apenas:</p>
<p>“Nada mais detestável que os dias tristes de verão, pois os dias claros não são dados às tristezas. Assim como ninguém consegue ser verdadeiramente alegre sob a chuva, é impossível ser tão miserável quanto se gostaria à luz do sol. Existe qualquer coisa de vida nos dias claros de verão, e não há tristeza que resista a uma boa quantidade de calor.”</p>
<p>Quando finalmente o convenci a voltar à cidade, ele me confessou, na mais perfeita incoerência, que a amava mais que tudo e a odiava mais que todos. Dormiu no meu sofá por quase um mês, vestindo, sempre, as mesmas calças de pijama. Certa vez, chegou a tomar banho com elas e depois correu à sacada para secar-se ao vento. Estava um louco. Mas parecia mais vivo que nunca, livre da vida que eu ainda levava e livre da vida que ele se impusera quase um ano antes. Entre a depressão, a loucura, o choro e os breves momentos calmos, eu percebia que havia encontrado algo valioso em si mesmo. Marília gostava de tê-lo em casa, dizia que eu vinha tratando-a com mais importância. Em uma manhã de maio ele havia partido. Deixou os lençóis dobrados e o pijama na lata de lixo. Sem bilhete nem carta, exatamente como eu imaginava que seria. Marília ainda me pergunta por onde ele anda, se vai bem, se ainda me escreve. Digo que não se preocupe. Seguro sua mão e digo que Pedro é o homem mais equilibrado que já conheci na vida. Não sei por onde ele anda, mas gosto de imaginá-lo em algum lugar da América Central, em um eterno dia de sol, distraindo-se com bebidas frescas e mulheres calidamente previsíveis.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/vidaparada.wordpress.com/17/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/vidaparada.wordpress.com/17/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/vidaparada.wordpress.com/17/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/vidaparada.wordpress.com/17/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/vidaparada.wordpress.com/17/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/vidaparada.wordpress.com/17/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/vidaparada.wordpress.com/17/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/vidaparada.wordpress.com/17/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/vidaparada.wordpress.com/17/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/vidaparada.wordpress.com/17/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/vidaparada.wordpress.com/17/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/vidaparada.wordpress.com/17/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/vidaparada.wordpress.com/17/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/vidaparada.wordpress.com/17/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=17&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Amor</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Oct 2009 01:40:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>juliabdantas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>

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		<description><![CDATA[Joana me convida para sair, ela colocou nossos nomes na lista de um bar onde normalmente nenhuma de nós teria dinheiro para entrar. Estávamos no quintal da minha casa, tomando chimarrão. A coloração do dia tinha passado de cor de trigo para um lilás escuro, pontilhado de respingos prateados. A luz era algo, era uma [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=15&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Joana me convida para sair, ela colocou nossos nomes na lista de um bar onde normalmente nenhuma de nós teria dinheiro para entrar. Estávamos no quintal da minha casa, tomando chimarrão. A coloração do dia tinha passado de cor de trigo para um lilás escuro, pontilhado de respingos prateados. A luz era algo, era uma coisa com a qual interagíamos. Disse a Joana que não era uma boa idéia. Eu estava namorando há poucos meses e não queria correr o menor risco de cair em tentação. Ela riu na minha cara. Disse que não esperava isso de mim:</p>
<p>– Eu não esperava isso de ti.<span id="more-15"></span></p>
<p>Cinco meses atrás a situação era a inversa, e ela que acabou por ceder aos meus apelos para sair e aos apelos românticos de um loiro com cara de hippie que a deixou solteira e arrependida.</p>
<p>Ela me olhava em tom de deboche. Disse que eu tinha obrigação de ir:</p>
<p>– Você tem obrigação de ir.</p>
<p>Joana saía todas as noites que podia e, nas suas próprias palavras, estava recuperando o tempo perdido. Eu já não tinha mais dinheiro, mas ela me pagava cervejas ou convencia, com métodos nada convencionais, o cara da mesa ao lado a pagar a nossa conta. Se os olhos de Joana já não brilhava como antes, ela, pelo menos, se movimentava bem mais. Desde o rompimento do namoro, ela ganhara novos gestos, era como se estivesse usando músculos nunca antes explorados. Seu pescoço parecia mais comprido, os olhos mais ágeis e as mãos nunca relaxavam. Ela vivia em constante estado de alerta. A não ser por raros, pequenos momentos em que o dia amarelava de repente, e se podia ver Joana olhando placidamente para uma folha caída, ou um paralelepípedo torto no meio fio. Mas logo ela esticava o pescoço, jogava o cabelo para trás e me olhava sorridente estalando a pergunta “para onde vamos agora?”. Estávamos sempre indo a algum lugar.</p>
<p>Ela me esperava com olhos inquisidores. Eu não conseguia explicar porque não iria cumprir minha obrigação aquela noite. Eu realmente queria ficar em casa e evitar problemas, sabia que eu teria o mesmo destino que Joana e o cara-de-hippie. Disse que não estava a fim. Ela riu. Disse que não era por mal. Ela riu. Disse, quase em súplica, que estava entrando nos eixos.  Ela – “eixos”, repetiu, cínica – e riu.</p>
<p>Tem dias. Não são todos, tampouco a maioria, mas eles vêm de vez em quando, normalmente aos pares. Sábado e domingo. Terça e quarta. Trinta e trinta e um. São dias em que eu não o amo menos, mas quase não o quero. É quando me pego lembrando que existem mil olhares e sabores, mil braços e bocas que eu nunca experimentei, que ninguém nunca experimentou como eu experimentaria. É culpa da luz lilás com prata, que me chama para a rua, que me convence que tudo que é novo é melhor, tudo que é novidade é mais intenso. Não tem como dizer não aos pontos prateados no ar, seria como negar a presença de flores no meio da primavera.</p>
<p>Joana está indo embora, do portão vejo ela escolher algum CD. Grito seu nome. Corro até a janela do carro e pergunto se tem problema eu ir de jeans. Ela sorri. Joana me conhece o bastante para saber quando estou em um dos dias lilases. Ela puxa o pino da porta do passageiro. Sento ao seu lado e puxo o espelho na minha direção, tenho que arrumar o cabelo. Ela arranca rápido, na pressa de chegar logo. E logo se entediar. E logo ir a outro lugar. E logo mais um.</p>
<p>Chegamos. O lugar está apinhado e desistimos de sentar. Vamos direto à pista de dança. Duas meninas sozinhas sempre chamam atenção, e logo Joana está inventando toda sorte de mentiras para uma dupla de sujeitos que parecem ter inflado os braços depois de vestir a camiseta. Vou ao bar, aquele não é o meu tipo. É preciso enfrentar um mar de cotovelos para chegar ao balcão, e, quando chego, está ao meu lado um garoto moreno, garrafa e copo na mão, olhos negros e densos . Um homem de olhos densos, esta mística entidade, quando sozinho em festas, é o pior inimigo das mulheres compromissadas.</p>
<p>Enquanto procuro a comanda, percebo que olhos-densos se aproxima. Me estende o copo:</p>
<p>– Toma essa comigo. Se eu tomar sozinho, vai esquentar.</p>
<p>Esta é a deixa para que eu diga algo como “meu namorado não ia gostar”. Mas às vezes eu não consigo, de maneira alguma, nem a custo do maior esforço, compreender uma obviedade. Como saber se o atual homem da minha vida é o homem de toda a minha vida? Como saber se ele é o que eu quero? Eu até penso que sim. Mas como ter certeza que não me falta alguma coisa lá de fora, que eu ainda nem sei que existe, mas que vai transformar minha vida em algo extraordinário? Só procurando para descobrir. Mas é impossível procurar com um namorado a tira-colo. E se eu procurar, quem garante que não vou descobrir que ele era, de fato, o que me faltava? E no fim, eu vou ter deixado justo aquilo que eu buscava. E vou ter trocado o homem real por um fantasma dele. Uma lembrança que vai ganhar novas cores na minha imaginação, e nova vida na idealização que eu fizer dele. E quando, por acaso, sorte ou persistência, eu ganhá-lo de volta, ele não vai corresponder ao seu próprio fantasma ideal, e eu vou pensar que não, ele não é mais o que me falta. E quando deixá-lo, vou de novo querê-lo. E a gente poderá passar muito tempo nesse ciclo, mas eventualmente, vai ser tarde demais para nós dois. E estaremos não só velhos, como descrentes. Então a escolha óbvia é ficar ao lado de quem eu já amo e evitar todo o sofrimento por vir. Mas e se não for tão óbvio ou tão certo? Pode ter outras coisas lá fora.</p>
<p>– Se é assim, eu aceito, não posso ver ninguém sofrendo com uma cerveja quente – respondo, ao mesmo tempo em que escondo os escrúpulos em algum lugar bem fundo e escuro.</p>
<p>Sentamos em um sofá vermelho. Descubro que olhos-densos não é tão inteligente quanto parece. Nem tão engraçado quanto eu gostaria ou charmoso quanto ele fez parecer a princípio. Mas olhos-densos tem uma boca convidativa e mãos grandes e nodosas. Sua voz parece vibrar em uma freqüência diferente das vozes comuns. Seus joelhos encostam nos meus, ele larga o copo no chão, enlaça as minhas costas e, com a outra mão, levanta meu queixo. A boca é mais macia do que eu esperava.</p>
<p>É uma coisa horrível, que eu precise de arrependimento para ter certeza do meu amor, e de perdão para ter certeza do dele. É horrível e doloroso e eu não sei como parar. Não pergunto o nome de olhos-densos. Não digo o meu. Quando Joana pula do meu lado com a pergunta pronta “vamos para outro lugar?”, eu apenas sorrio e levanto. Ela me olha com orgulho, diz que nunca se enganara comigo:</p>
<p>– Nunca me enganei com você. Sabia que ia achar um gatinho.</p>
<p>Mas eu tenho a sensação de que me engano ao enganar Rodrigo. Joana e eu vamos a um boteco, onde ela pede batatas fritas e uma cerveja bock, me conta dos caras com quem dançou, dos telefones que mentiu e do cara para quem deu o verdadeiro, me conta tudo enquanto remexe na bolsa, prende cabelo, abre e fecha o celular, tira o casaco, volta a vesti-lo, nem percebe que eu não participo de seu monólogo. Preciso agora decidir minha vida a partir de amanhã. Se eu conto a Rodrigo&#8230; mas não consigo completar a frase. Monto a cena na minha cabeça: Rodrigo leva as mãos ao rosto, levanta-se de repente, caminha em círculos na minha frente. Ele diria que não acredita, e seria verdade. Rodrigo não acredita na maldade humana.</p>
<p>Se eu conto, Rodrigo pode não me perdoar. Eu me transformarei em uma outra versão de Joana, mas não consigo mais viver em um eterno afã de viver. Mas, se eu conto, Rodrigo pode me perdoar, e em algumas semanas, talvez dois meses, nossa vida seja como sempre foi. Eu vou agradecê-lo por seu perdão e desprezá-lo por sua fraqueza. Apenas os fracos aceitam o sofrimento. Se eu finjo que nada aconteceu, ele pode desconfiar e o distanciamento entre nós vai ser o bastante para nos destruir. Se eu finjo e ele não desconfia, vou desprezá-lo por fazer o papel de idiota que eu mesma criei para ele.</p>
<p>Saímos do bar e está amanhecendo. Joana quer me dar uma carona, eu digo que vou para casa a pé. Sozinha, para pensar na vida. Sinto que Joana esboça um olhar de compreensão, mas logo estica o pescoço e busca as chaves na bolsa. Ouço o barulho do salto-alto batendo no paralelepípedo enquanto caminho na direção oposta. O sol cresce amarelo entre os prédios. A luz atravessa o ar laranja e quente, pingado de vermelho. Enquanto eu não dormir, não chega o dia de amanhã.</p>
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		<title>Travessia</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Oct 2009 01:39:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>juliabdantas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Travessia]]></category>

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		<description><![CDATA[Assim que entro no bar me perco de João. Ele se misturou às pessoas que sacudiam suas cabeças em meio às luzes giratórias e eu fiquei presa na entrada, esperando que a mocinha de terno revistasse minha bolsa. Decepcionada, ela me libera na falta de drogas, garrafas ou facas e eu tento achar meu amigo [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=11&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Assim que entro no bar me perco de João. Ele se misturou às pessoas que sacudiam suas cabeças em meio às luzes giratórias e eu fiquei presa na entrada, esperando que a mocinha de terno revistasse minha bolsa. Decepcionada, ela me libera na falta de drogas, garrafas ou facas e eu tento achar meu amigo no meio da batida eletrônica.</p>
<p>João me agarra pelos ombros e uiva no meu ouvido “uhuuuuuuuuuuuu” me arrasta até o bar e pede uma água. Só existe uma situação em que João pediria água. Ele abre a garrafa e me mostra um comprimido “pega isso, deixa embaixo da língua, puta barato”. Obedeço. Sou muito obediente.</p>
<p>Alguns minutos depois, João está desaparecido há anos e eu não me importo. Sem querer, paro na frente de uma porta e tenho a mais clara certeza que era isso que eu procurava. Enquanto tento mexer a mão direita (mas o cérebro parece só mandar sinais para o joelho esquerdo) a porta se abre e Hunter Thompson me encara de cima abaixo “Eles disseram que você seria loira” ele me diz. Ofendida, respondo que “eles me disseram que você estava morto”. Hunter Thompson sorri e me pega pela mão. Descemos uma escada escura e no subsolo descobrimos uma sala de paredes vermelhas e tochas de fogo pendendo do teto.<span id="more-11"></span></p>
<p>Hunter aponta para o chão “cuidado com as ratoeiras”, eu quase piso dentro de uma entre dezenas espalhadas pelo chão “tem ratos aqui?”, eu pergunto. Hunter sorri com cara de quem já esperava “não, querida, é para as pessoas”. Os olhos se acostumam com a pouca luz e percebo homens presos por ratoeiras, acorrentados às paredes enquanto mulheres em roupas de couro chicoteiam sem cessar, sempre a milímetros de distância dos homens. Hunter sussurra no meu ouvido “eles são masoquistas, elas são sádicas, infelizmente para todos, elas nunca acertam as chicotadas”.</p>
<p>As mulheres estão cobertas de suor e gritam a cada investida do chicote. Seus rostos vermelhos estão cobertos por lágrimas de raiva. Os homens contraem todos seus músculos e tentam esticar os braços e pernas até onde os chicotes batem nas paredes, mas é inútil. Olho para Hunter e penso em perguntar por que as mulheres não dão um passo à frente, mas compreendo que eles passarão o resto da eternidade sem sair do lugar.</p>
<p>Hunter começa a rir, rir, rir, rir, sua risada se sobrepõe aos gritos, aos lamentos e à música techno, sua risada ganha forma e preenche o lugar, me empurrando de volta para a escada escura. Hunter está rindo de dentro de uma ratoeira e me esperando no alto da escada. Subo. Quando ele abre a porta o saguão parece diferente. A música continua ali, as cabeças ainda se sacodem, as luzes piscam, mas o ar tem um gosto diferente. Gosto de anis.</p>
<p>Hunter saltita entre as pessoas. A mim, falta agilidade e logo me vejo cercada por dezenas de evangélicos vestidos de branco com sapato social preto. Em coro eles tentam me convencer a parar de beber. Digo-lhes que não bebo. Eles me respondem “Então pare de fumar”. Digo que não fumo. Eles perguntam o que eu faço e eu digo que não faço nada, então eles me dizem que devo parar de fazer isso também. Me afasto dos evangélicos e desvio do grupo de estudantes de medicina que discute se o pior para a saúde são os ovos ou a carne de galinha enquanto cheiram cocaína de cima de suas chaves.</p>
<p>Me encosto no balcão e peço uma cerveja ao garçom. Ele me serve um suco de clorofila. No lugar da porção de fritas, me estende um açaí na tigela. Vejo um surfista ao meu lado sendo servido por um metaleiro. À sua frente um copo de uísque e um prato de croquete. Sugiro que troquemos de pedido e imediatamente um estagiário-com-cara-de-ambição-de-subir-na-empresa nos diz que é proibido realizar qualquer troca. Pergunto por que.</p>
<p>– São ordens – ele diz.</p>
<p>Eu começo a fazer qualquer pergunta que me ocorra e que comece com “por que” enquanto o surfista fala sobre a comunhão com a natureza, a liberdade e o azul do mar. O estagiário coça as espinhas e sai correndo para esconder as lágrimas. Eu e o surfista nos levantamos para trocar de lugar e aparece um homem cuja massa muscular corresponde a minha e à do surfista unidas a de todas as pessoas na pista de dança. O segurança nem precisou mexer um dedo, sua presença bastou para que saíssemos de perto do balcão, eu tomando água com gosto de grama e o surfista enjoando-se com a gordura dos croquetes.</p>
<p>Hunter apareceu na minha frente. Ele simplesmente voltou meu corpo na direção da porta e apontou o sinal de saída. Atravessei as cabeças sacolejantes e conforme eu me aproximava da porta se esvaía o gosto de anis. Empurrei a maçaneta e saí.</p>
<p>Nada acontecia. A música não acontecia. As pessoas não aconteciam. Nada acontecia. Ao longe, vejo uma folha se atirar do mais alto galho de uma árvore, mas ela não consegue passar do chão. Em volta, é apenas céu.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/vidaparada.wordpress.com/11/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/vidaparada.wordpress.com/11/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/vidaparada.wordpress.com/11/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/vidaparada.wordpress.com/11/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/vidaparada.wordpress.com/11/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/vidaparada.wordpress.com/11/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/vidaparada.wordpress.com/11/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/vidaparada.wordpress.com/11/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/vidaparada.wordpress.com/11/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/vidaparada.wordpress.com/11/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/vidaparada.wordpress.com/11/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/vidaparada.wordpress.com/11/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/vidaparada.wordpress.com/11/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/vidaparada.wordpress.com/11/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=11&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Maturidade</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Oct 2009 01:38:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>juliabdantas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Maturidade]]></category>

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		<description><![CDATA[Era noite e na casa de Eugênia só havia uma lâmpada acesa. As outras se acumulavam em uma caixa de papelão no canto da sala, quebradas ou queimadas. A parca luz do quarto iluminava Eugênia e suas duas filhas, Glória e Teresa, 7 e 9 anos ao pé da cama. Eugênia costurava, ouvia as conversas [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=9&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Era noite e na casa de Eugênia só havia uma lâmpada acesa. As outras se acumulavam em uma caixa de papelão no canto da sala, quebradas ou queimadas. A parca luz do quarto iluminava Eugênia e suas duas filhas, Glória e Teresa, 7 e 9 anos ao pé da cama. Eugênia costurava, ouvia as conversas da filha sobre o dia na escola, os professores e os cochichos que falavam de meninos.</p>
<p>Teresa ajudava Glória com o tema de casa. Mas em certo momento nenhuma das duas conseguia resolver um problema de matemática, suas respostas não batiam com o gabarito que o professor passara. Foi Teresa quem perguntou:</p>
<p>– Mãe, a senhora acha que os professores têm sempre razão?<span id="more-9"></span></p>
<p>– Claro – diz Eugênia – isso é tão certo quanto aquele metro medir um metro.</p>
<p>O metro a que ela se referia estava encostado à parede, de pé, feito de uma madeira escura com marcações em preto. As meninas nutriam certa curiosidade em relação ao metro, mas o respeito que tinham por ele era maior que a curiosidade, impedindo-as de fazerem perguntas ou investigações minuciosas no objeto.</p>
<p>Nunca viram a mãe usá-lo, só conheciam o metro naquela posição vertical, estático, a tal ponto que era difícil saber se a parede sustentava o metro ou se este é que sustentava a casa. Por medo, nunca o tiraram do lugar. No fundo, Glória, a mais velha, desconfiava que o metro só servia para as lições de moral da mãe, que sempre terminavam com o refrão “tão certo quanto aquele metro medir um metro”.</p>
<p>As meninas se conformaram com a matemática que discordava da sua lógica, e deitaram encolhidas na cama da mãe, ainda costurando, sempre costurando.</p>
<p>Por um mosquito que picou a sola do pé de Teresa durante o sono ela acabou por chutar a perna da irmã e então ali estavam as duas acordadas, vendo, pela primeira vez na vida, a mãe dormir. Assim como os lagartos não voam, o céu não cai e a chuva nunca é salgada, a mãe, para elas, nunca dormia. Sem precisar de palavras de combinação ou um simples olhar cúmplice, as duas saíram das cobertas e sentaram, lado a lado, de frente ao metro encostado na parede.</p>
<p>Correram os olhos pela madeira, acompanhando a contagem de 1 a 100. Prestaram atenção a todos os números, para ter certeza que nenhum faltava, que estavam diante de um verdadeiro metro, com todos seus centímetros. Glória olhou para Teresa pedindo aprovação. Teresa sacudiu a cabeça “é melhor não, mamãe não ia gostar”. Mas Glória não podia mais conter as mãos. Bem devagarinho, porque se a parede caísse ela queria ter tempo de chamar a mãe, Glória desencostou o metro da parede.</p>
<p>Nada caiu. Teresa segurava as mãos no ar, controlando a vontade de bater palmas. Glória girou o metro e enquanto à frente de Teresa apareciam as medidas que pulavam de dez em dez centímetros, à sua frente estavam distâncias completamente diferentes.</p>
<p>Pelos minutos seguintes, Teresa admirou aquele longo metro que media um metro inteiro. Mas Glória aproximava o rosto da madeira, media os dedos, lia os números, leu tudo que estava à sua frente. Quando compreendeu, devolveu o metro à parede e disse grandiloqüente:</p>
<p>– Tê, vai dormir.</p>
<p>Teresa olhou surpresa, pôs os beiços para baixo. Glória repetiu:</p>
<p>– Volta para a cama.</p>
<p>Teresa voltou. Glória levantou-se e espiou a noite através das venezianas. Não poderia dizer a Teresa o que descobrira, pelo menos, não agora. Julgava-a muito jovem para entender. Glória sentia-se triste por ver cair o mito da mãe, por saber que ela não estava sempre certa, mas não duvidava mais que pudesse cair à sua frente um pedacinho de nuvem branca. Glória descobrira, em uma pequena epifania, como devem ser as epifanias das crianças, que um metro mede, na verdade, 39 polegadas.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/vidaparada.wordpress.com/9/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/vidaparada.wordpress.com/9/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/vidaparada.wordpress.com/9/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/vidaparada.wordpress.com/9/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/vidaparada.wordpress.com/9/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/vidaparada.wordpress.com/9/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/vidaparada.wordpress.com/9/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/vidaparada.wordpress.com/9/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/vidaparada.wordpress.com/9/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/vidaparada.wordpress.com/9/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/vidaparada.wordpress.com/9/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/vidaparada.wordpress.com/9/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/vidaparada.wordpress.com/9/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/vidaparada.wordpress.com/9/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=9&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Medo</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Oct 2009 01:36:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>juliabdantas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Medo]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu estava sentada na cama dele, fumando um cigarro dele, de frente pro aquário dele, olhando os peixes dele, quando ele entrou no quarto e disse: – Já disse para você não fumar os meus cigarros. – Um cigarro, Juliano, que diferença faz? Ele já estava do meu lado, pegando a carteira de Marlboro de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=7&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu estava sentada na cama dele, fumando um cigarro dele, de frente pro aquário dele, olhando os peixes dele, quando ele entrou no quarto e disse:</p>
<p>– Já disse para você não fumar os meus cigarros.</p>
<p>– Um cigarro, Juliano, que diferença faz?</p>
<p>Ele já estava do meu lado, pegando a carteira de Marlboro de cima da minha coxa e resmungando:</p>
<p>– Um cigarro todo dia, durante toda semana já dão sete.</p>
<p>– Eu sei contar, Juliano.<span id="more-7"></span></p>
<p>Ficamos em silêncio por algum tempo, eu nem tinha me mexido, ele estava escorado na parede à minha frente com as mãos no bolso, sacudindo os cigarros lá dentro. Ele nunca tinha sido exatamente simpático comigo. Nos conhecíamos há duas semanas, era verão em Porto Alegre, nós dois estávamos de férias sem dinheiro para viajar. Eu acabei passando essas duas semanas sem sair do apartamento dele. Quase sem sair do quarto dele. Quase sem parar de vigiar o aquário dele.</p>
<p>– Não sei o que você vê nesses teus peixes.</p>
<p>– Não sei o que você tem contra eles.</p>
<p>Ele se afastou da parede e pegou de uma estante um frasco com comida de peixe, aquela coisa que parece papel. Abriu a tampa do aquário e começou a jogar os flocos lá dentro, com toda delicadeza, os olhos vidrados na água, com toda dedicação, como se a vida dele dependesse da realização daquela tarefa. Depois fechou o frasco e ficou observando os peixes comerem.</p>
<p>– Acho que aquela ali tá grávida, vou separar do resto para que os filhotes possam nascer em segurança. E o betta parece doente, talvez eu devesse separar ele também.</p>
<p>– Grávida? E você vai deixar ela lotar mais ainda o teu aquário?</p>
<p>– Cala a boca, Camila, são meus peixes.</p>
<p>Eu nunca disse, e jamais diria sob risco de ouvir um “como você é babaca”, mas eu tenho medo de aquários. Ainda mais quando eles estão muito perto. E o dele ficava na cabeceira da cama, com aquelas bolhinhas de ar subindo e fazendo barulho, blup blup, o tempo todo, e o zunido do termostato, o tempo todo, e as algas balançando, o tempo todo, e aquelas dúzias de bichos dentro que nunca fechavam os olhos. Sim, porque o Juliano precisava ter dúzias de peixes, não bastava um, dois, eram dúzias, todos espalhados por um aquário de quase um metro quadrado, todos sempre de olhos abertos, me olhando. O tempo todo.</p>
<p>– Porra, Camila, não bate no vidro, você vai assustar eles.</p>
<p>Eles me assustam, eu também assusto.</p>
<p>– Você se importa mais com eles do que comigo – eu disse.</p>
<p>E esse foi o início do fim.</p>
<p>– Que foi?</p>
<p>– Não disse nada.</p>
<p>Se tinha uma única coisa que fazia o Juliano aceitar minha presença constante no quarto dele era que eu não me importava com o que ele sentia. Não me importava com o que ele dizia e deixava de dizer. Aí um dia eu reclamo que ele não se importa comigo e era óbvio que ele ia me mandar embora naquele instante porque o Juliano tem problemas de intimidade, e o Juliano não consegue se comprometer com nada, e o Juliano não sente, e o Juliano é um solitário e, vamos e convenhamos, o Juliano é um idiota.</p>
<p>– Não. Repete.</p>
<p>– Eu não disse nada, esquece.</p>
<p>Eu já sabia exatamente os próximos minutos. Ele vai dizer que eu sou uma mulherzinha mesmo, que sou carente e que eu tô delirando, porque ele nunca sequer tinha dito que gostava de mim e que se, algum dia, ele sequer me comparasse com os peixes dele eu devia me sentir lisonjeada porque eu sou menos do que um peixe, eu não sou porra nenhuma. Depois ele vai dizer que é melhor eu ir embora, ele que não vai se envolver com os meus problemas e quanto antes terminar, melhor. Vai embora, ele vai dizer, pega tuas coisas e vai para a tua casa.</p>
<p>Ele saiu de perto da parede e sentou na minha frente. Os peixes me olhavam do aquário com ares de superioridade. O Juliano me olhava nos olhos. Eu olhava nos olhos dos peixes. O Juliano não piscava, os peixes também não. Blup, blup vinha das águas. O Juliano não piscava, me olhando, o tempo todo, os peixes de olhos abertos, o tempo todo, o Juliano me olhando e esperando.</p>
<p>– Eu disse que vicê se importa mais com seus peixes do que comigo.</p>
<p>Pronto, ele vai me expulsar daqui em dois segundos. E eu, babaca, vou pedir para ficar, vou dizer que foi um lapso, acordei de mau humor, eu tô pouco me fudendo pra ti e o que você pensa, eu vou dizer. Me deixa ficar, eu gosto daqui. Eu gosto quando você fica na frente do aquário e não deixa os peixes me avistarem. Eu gosto do teu gosto de cigarro e tua cicatriz na barriga que você não me diz donde veio. Eu gosto da tua cama e eu quero ficar. Me deixa ficar, eu juro que nem falo mais contigo. Nem olho mais pra ti.</p>
<p>– Você acha mesmo que eu me importo mais com os peixes?</p>
<p>Silêncio.</p>
<p>Ele abriu a tampa do aquário, pegou aquela redezinha que se usa para tirar os peixes d’água e colocou lá dentro. Pegou um peixinho preto, trouxe ele para o ar e jogou no chão. Do meu lado, do lado da minha sandália marrom que estava atirada, caída de lado, imóvel naquele lugar há quinze dias. O peixinho preto ficou se debatendo no chão, pulando feito pipoca e logo caiu do lado dele um peixinho vermelho. E assim as dúzias de peixes do Juliano foram sendo jogadas no chão, um a um, jogados no seco sem aviso prévio. Quando os primeiros peixes estavam parando de se mexer em meio a um tapete de moribundos inquietos, Juliano baixou a cabeça e disse:</p>
<p>– Por ti.</p>
<p>Eu levantei. Peguei as minhas sandálias do meio dos peixes se afogando em terra, olhei para o Juliano e calcei-as.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/vidaparada.wordpress.com/7/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/vidaparada.wordpress.com/7/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/vidaparada.wordpress.com/7/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/vidaparada.wordpress.com/7/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/vidaparada.wordpress.com/7/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/vidaparada.wordpress.com/7/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/vidaparada.wordpress.com/7/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/vidaparada.wordpress.com/7/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/vidaparada.wordpress.com/7/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/vidaparada.wordpress.com/7/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/vidaparada.wordpress.com/7/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/vidaparada.wordpress.com/7/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/vidaparada.wordpress.com/7/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/vidaparada.wordpress.com/7/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=7&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>A Vida Parada</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Oct 2009 01:19:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>juliabdantas</dc:creator>
				<category><![CDATA[A Vida Parada]]></category>

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		<description><![CDATA[Um dia o chefe da repartição chegou dizendo que todos íamos trabalhar até as sete da noite. – Que porra é essa? – eu disse – meu horário é até às cinco e não fico aqui nem mais um minuto. O chefe nem me olhou para responder. – Bem, Thomas, se você quer perder o [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=vidaparada.wordpress.com&amp;blog=9819696&amp;post=3&amp;subd=vidaparada&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um dia o chefe da repartição chegou dizendo que todos íamos trabalhar até as sete da noite.</p>
<p>– Que porra é essa? – eu disse – meu horário é até às cinco e não fico aqui nem mais um minuto.</p>
<p>O chefe nem me olhou para responder.</p>
<p>– Bem, Thomas, se você quer perder o emprego, não tenho nada com isso.</p>
<p>Ele era o maior filha da puta que já pisara naquele prédio e não era eu quem ia acatar ordens de um imbecil.</p>
<p>– Não estou nem aí – disse para Cris, o garoto que trabalha na mesa ao lado – vou embora às cinco horas. Melinda está em casa me esperando e não vou trocar aquele lindo e quente traseiro pelo traseiro gordo de um idiota.<span id="more-3"></span></p>
<p>– Não sei não, Thomas. Acho que você devia ficar. São só duas horas, não mata ninguém.</p>
<p>Não existia a menor chance de eu perder duas horas naquele lugar, então eu lhe disse</p>
<p>– Cris, se você quer chupar as bolas do patrão, tudo bem, isso é problema seu, mas não me ponha no meio disso, garoto.</p>
<p>Sou velho demais para algumas coisas.</p>
<p>Cris era um garoto bom, tinha a pele rosada e sabia contar boas piadas. Era o tipo de sujeito que passaria a vida em um emprego ordinário, mas sem perder a esperança de um dia ganhar uma promoção. Mas ainda assim, Cris era um bom garoto. Eu é que não tinha a energia para fazer o que ele fazia.</p>
<p>– Cris – eu disse – se eu tivesse a sua idade estaria por aí catando umas mulheres ao invés de perder meu tempo em um emprego miserável como esse.</p>
<p>Aposto que Cris nunca tivera uma garota. O país está cheio desses rapazes inexperientes. Ele apenas me olhou e riu. Desconfio que tinha mais pena de mim do que eu dele.</p>
<p>Às cinco horas eu levantei para ir embora. Cris levantou-se também e apertou minha mão cerimonioso:</p>
<p>– Foi bom trabalhar com você, Thomas.</p>
<p>– Ora, não seja estúpido, Cris. Eles não vão me demitir.</p>
<p>Cheguei em casa e encontrei Melinda bebendo uísque na banheira. Ela estava com os pés para cima e entornava a garrafa feito um marinheiro bêbado.</p>
<p>– Que merda você pensa que está fazendo Mel, quer se matar, é isso?</p>
<p>Eu odeio quando Melinda bebe. Ela sempre fica mais pirada do que eu.</p>
<p>– Estou apenas tomando um banho, b-a-b-y. – Ela virou um gole. – Você já fez coisa muito pior.</p>
<p>Era verdade, mas eu a odiava mesmo assim naquele instante.</p>
<p>– Vamos, saia daí, meu bem.</p>
<p>Carreguei-a da banheira até a cama. O bom de Melinda é que ela nunca reclamava de nada. Era como um maldito peru que não sabe que vai ser assado. Joguei os cobertores em cima dela e peguei a garrafa. Tomei o último gole.</p>
<p>– Um garoto lá do trabalho acha que eu fui demitido, Mel, você sabia disso?</p>
<p>– Não, baby, não sabia. – Ela se virou de bruços e abraçou o travesseiro. – Conte-me, por favor, antes que eu morra numa convulsão de curiosidade.</p>
<p>Eu adorava o interesse fingido de Melinda.</p>
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