Humildade

Me sinto cada vez mais inverossímil e a linha do telefone foi cortada. Tenho lido novelas de aeroporto com nomes de mulher e não consigo evitar pensar em mim como um personagem canastrão dos anos quarenta. Ao fim de cada novela, quando a mocinha casa ou o vilão morre, fico olhando para o teto e me perguntando o que faria minha descrição valer mais que “um homem de chapéu” ou “um nariz afunilado”. E fico lembrando de Clara. Continuar Lendo »

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Renúncia

Maria Luiza pousava o indicador sobre o meu dedão. Eu apertava os olhos ainda mais. Ao lado do indicador, colocava o dedo médio. Posso imaginá-la esticando estes dois e juntando os outros na palma da mão. Delicadamente, sua mão caminhava na ponta das unhas. Maria Luiza contava os dedos dos meus pés toda manhã ao acordar.

Ao terminar, escolhia um dos dedos para lamber com sua língua quente, engatinhava até meu travesseiro e sussurrava no meu ouvido “Todos os dez”. Eu me virava para ela, que levantava e se vestia em questão de segundos. Sentada na poltrona verde, ela enfiava seus pézinhos em meias masculinas. Levantava a cabeça para mim com olhos de pavão vaidoso, eu a observava de volta com olhos de ovelha em dia de chuva. As ovelhas sempre morrem nas enchentes porque não sabem nadar. Nem fugir. Todos os dias passamos pelo mesmo ritual, exceto foi, naquela manhã. Continuar Lendo »

Angústia

Fica. Não porque eu quero que você fique ou porque você quer ficar. Só para a gente não ficar sozinho. Deita na minha cama quente e passa a noite comigo. Lá fora chove e você não tem onde se esconder e vai ser obrigado a lembrar daquela vida da qual você tanto foge, então fica e te esconde no meu lençol. Não pelo conforto, pela fuga. Continuar Lendo »

Apego

Quando entrei no quarto, ela segurava um cigarro entre os dedos do pé. Aquilo me enlouquecia. Não entendia porque alguém sentia a necessidade de fazer três coisas ao mesmo tempo para depois ficar horas fazendo nada. Elizabeth cortava batatas, falava ao celular e fumava. Eu não veria, porque tinha que trabalhar, mas sabia que ela passaria o resto da tarde atirada no colchão do meio da sala, sem mover um braço.

Estávamos vivendo em um buraco no meio do deserto peruviano. Eu trabalhava como garçom no restaurante de um albergue, me pagavam uma miséria, mas me davam alojamento e comida. Liz não trabalhava. Ela poderia secar a louça com notas de 50 dólares se quisesse, mas mentia que era pobre. Acho que a mentira tornava sua vida mais próxima de uma aventura. No fim, eu invejava o dinheiro dela, e ela invejava minha loucura miserenta em um país ainda mais miserável. Continuar Lendo »

Solidão

A sala dos professores está lotada. Uma senhora gorda, modelo 54 judiado, entra com uma pilha de mapas. Mira a cafeteira e avança por cima da estagiária franzina, vencendo a distância a solavancos. Com a boca cheia de restos de bolacha água e sal, dispara entre os presentes:
– Vocês já sabem da última?
Menos de doze horas antes, a diretora do colégio João Baptista raspava o fundo do açucareiro para adoçar o seu café aguado, que era para ajudar a engolir as torradas de presunto, que eram sem maionese porque Ruth queria emagrecer. Sentia muito calor naquela noite. Deixou o café parado, esfriando, antes de tomá-lo. Contou os azulejos da parede enquanto pensava em uma boa novidade para o dia seguinte. Sabia que o Oliveira andava passando a mão nas coxas da Berenice às escondidas, mas pareceu-lhe notícia velha. Pensou em contar que o Souza andava perdendo dinheiro no jogo do bicho, tinha pedido adiantamento do salário, de joelhos, na sua sala. Mas, todo mundo na mesma pobreza, ninguém ia se surpreender com o Souza. Lembrou do Carlos, parece que ele tinha sido xingado por um aluno e quase chorou em aula, mas não tinha provas. Ele não contara a ninguém, por vergonha. A verdade é que todas as fofocas andavam entediando-a. E o novo professor da oitava série, o tal de Diniz, não chegava nem perto de fornecer material às bocas do povo. Ele no máximo levou algumas canetas para casa, mas ninguém se importa com canetas. Era um tremendo sem graça, o Diniz.
Os professores procuram papéis para remexer. Ninguém olha diretamente para Ruth, ela puxa uma cadeira para a ponta da mesa e apóia ali os cotovelos. Seus olhinhos brilham espremidos. Ela olha em volta, puxa a cadeira para frente em um pulinho e joga a mão no braço da Berenice, sentada ao seu lado. Berenice se vira. Ruth fala olhando para ela, mas em um volume que dispensaria microfones dentro de um auditório lotado.
– O Diniz não vai poder vir hoje porque se meteu em uma briga de bar ontem de noite. – Ela falava tão rápido que sobrepunha o início de uma palavra ao final da anterior – Uma coisa horrível. Tá com olho roxo e tudo. Foi se engraçar com uma menina de quinze anos e não é que o pai da guria tava ali do lado? Jogando sinuca. Pois é. Coitado do Diniz. Parecia tão certinho.
A declaração improvável acaba por chamar a atenção de todos os professores. “O Diniz?” “É do Diniz que ela está falando?” “Mas logo o Diniz….”. As frases correm baixinho de ouvido a ouvido. Com todos em torno da mesa, Ruth dá os detalhes. A menina era loira. O pai tinha mais de metro e oitenta. O Diniz, pobre, apanhara de soco, de chute, de taco e de bolinha de sinuca. Restava pouco do infeliz. No HPS acharam que tinha sido assalto. O Diniz até concordou, não queria ter que contar a história verdadeira. Era um horror. Melhor nem comentar pelos corredores, não seria de bom tom. Se Ruth contava isso agora, é porque não queria constrangimentos para o Diniz quando ele aparecesse no dia seguinte todo rengo, olho roxo e aquela coisa. Os professores balançam a cabeça em afirmação: nem um pio a mais sobre o Diniz.
Ao lavar a caneca do café, Ruth pensou que o Diniz talvez merecesse alguma atenção. Ao espremer o detergente na esponja, pensou nos olhos do Diniz. Ao esfregar a marca de batom na caneca, imaginou os sapatos do Diniz. Ao deixar a água da torneira correr, lembrou a boca grossa e torta para a direita. Ao correr a toalha pela alça da caneca, conseguiu ver, à sua frente, o início da careca, um círculo atrás da cabeça, tinha até certo charme. Ao largar a caneca no armário, tinha tudo pronto na cabeça.
Foi até o telefone e buscou um número no caderninho azul.
– Oi professor, tudo bem? Estou ligando só para dizer que amanhã o senhor não precisa ir à escola, vamos ter uma programação especial para os alunos, uma série de palestras no auditório. Isso mesmo, fique em casa e descanse um pouco. Um abraço.
Já saindo da sala dos professores, Ruth hesita. No dia seguinte Diniz apareceria sem machucados, sorridente como sempre, sem uma mísera muleta ou um olho inchado. Era um passo arriscado. Ela conhecia o poder de um boato, mas isso talvez fosse um pouco demais. E, além de tudo, era a primeira vez que inventava um boato, em geral só os espalhava. Ruth podia, às vezes, se comportar como uma víbora, mas ainda tinha este ou aquele escrúpulo. E o Diniz, meu deus, ela se deu conta, nem merecia. Ruth se vira para os professores. Era necessário, mais que urgente, desfazer a bagunça. Elabora em quatro segundos a desculpa para desmentir a coisa toda. Bastava dizer que o Diniz, na verdade perdera a mãe, mas não queria que ninguém comentasse nada, então pedira à Ruth que inventasse uma história. Ela se perdera nos detalhes, pois que não estava acostumada a mentir, e fora longe demais. Então Ruth pediria que ninguém comentasse a respeito da mãe do Diniz e esquecessem a história da briga. Era a desculpa perfeita. Elaborada em quatro segundos, um recorde.
– Colegas, eu preciso dizer uma coisa.
Todos olharam imediatamente – Ruth tinha ganho créditos de atenção. E no momento em que aqueles olhos sedentos encararam as bochechas rosas de Ruth, ela só pôde dizer:
– Eu não ia contar, mas a menina, a de quinze, já tinha sido aluna do Diniz na quarta série.

A sala dos professores está lotada. Uma senhora gorda, modelo 54 judiado, entra com uma pilha de mapas. Mira a cafeteira e avança por cima da estagiária franzina, vencendo a distância a solavancos. Com a boca cheia de restos de bolacha água e sal, dispara entre os presentes:

– Vocês já sabem da última? Continuar Lendo »

Era para ser um sábado como qualquer outro. Eu saí de casa perto das duas, caminhei até o café a uma quadra da minha casa, sentei na minha mesa e pedi o almoço. Nos dias quentes sempre gostei de tomar sopas. O café era o único lugar no meu bairro que servia sopas no verão. E eu devia ser o único que as tomava. É que eu sentia o caldo descendo pela garganta, o calor propagando-se por todo o corpo, o suor nascendo na nuca. Era minha íntima subversão.

Enquanto esperava o garçom, arrumei o saleiro, a pimenta e o queijo ralado da maneira mais agradável na mesa. Rescostei-me na cadeira e vi descendo a rua um homem alto e idoso, acompanhado de uma menina de uns quatorze anos. O homem parecia-se comigo, apenas mais velho. Mantinha as mãos nos bolsos da calça cinza e sua gravata às vezes ondulava contra o vento. A menina gesticulava muito e, a todo instante, prendia os cabelos loiros atrás da orelha. Era o tipo que falava com as mãos. Ela parou no centro da calçada, fez o homem voltar-se para ela e riscou no ar um enorme círculo que acabava em duas espirais, desenhadas pelas mãos que desceram até quase o chão. Continuar Lendo »

Óculos novos fazem eu me sentir numa prisão. A partir do momento que eu saio da ótica com aquela armadura, digo, armação nova, já sinto um formigamento que começa na ponta do nariz. Depois o formigamento sobe em círculos até tomar conta da testa. Se alastra para as orelhas. A língua adormece. O pescoço se contrai. O formigamento desce levantando os pêlos do peito. Revira o estômago. Faz qualquer coisa no pâncreas que ninguém sabe mesmo para que serve o pâncreas e quando chega nos joelhos causa uma tremedeira daquelas de quem está apaixonado e eu me dou conta que só andei até a esquina da quadra da ótica e ainda me falta atravessar a rua. Continuar Lendo »

Esperança

Um dia você acordará e seus sapatos não lhe servirão. Não importa se você terá engordado ou se terá envelhecido e encolhido. Fato é que um dia você acordará e seus sapatos não lhe servirão mais. Você vai senti-los pressionando o dedão ou caindo pelo calcanhar, dará algumas voltas pelo quarto, olhará para o espelho e enfim aceitará que não te servem. E o mais importante é o que você fará então. Você poderá teimosamente usá-los e encravar uma unha. Poderá furar a ponta. Usar uma palmilha. Poderá comprar outro. Ou poderá andar descalço. Seja como for, é uma escolha para o resto da vida. Ou, pelo menos, até o próximo dia em que você acordar e seus sapatos não estiverem ali. Continuar Lendo »

Espirros

(Dizem que uma pessoa pode morrer se trancar um espirro. Uma veia importante pode estourar e dar início a uma hemorragia. Eu tenho rinite crônica. A cada dia eu passo por aproximadamente 80 situações de risco de vida. Isso porque eu não sei espirrar. Não me ensinaram. Me diziam que era feio espirrar alto então até hoje eu prendo o nariz. E toda vez eu imagino que alguma veia lá dentro está ficando fraca, cada vez mais fraca, esperando o dia de explodir e sangrar até que eu morra. Que escrevam na minha lápide: Aqui jaz Gustavo Torres, morto de espirro.) Continuar Lendo »

Felicidade

A primeira carta que recebi de Pedro foi duas semanas após sua partida para o Paraná. Nunca escreveu o endereço de remetente, dizia que não queria jamais ser encontrado. Ele largara um bom emprego e um alto salário para viver em um pequeno hotel no meio da natureza. Lá conheceu Leda. Imagino que foi por causa dela que passou a me escrever, contando-me as pequenas particularidades de sua vida a dois. Pedro nunca tivera um relacionamento longo, acho que precisava dividir as novidades. De minha parte, apreciava a correspondência. Entre meus e-mails de trabalho, as chamadas perdidas no celular, os bips e apitos dos eletrodomésticos e a salvação do ar condicionado, receber uma carta social era um anacronismo inspirador. Cheguei a criar o hábito de abrir uma garrafa de vinho para ler as cartas de Pedro. Continuar Lendo »

Amor

Joana me convida para sair, ela colocou nossos nomes na lista de um bar onde normalmente nenhuma de nós teria dinheiro para entrar. Estávamos no quintal da minha casa, tomando chimarrão. A coloração do dia tinha passado de cor de trigo para um lilás escuro, pontilhado de respingos prateados. A luz era algo, era uma coisa com a qual interagíamos. Disse a Joana que não era uma boa idéia. Eu estava namorando há poucos meses e não queria correr o menor risco de cair em tentação. Ela riu na minha cara. Disse que não esperava isso de mim:

– Eu não esperava isso de ti. Continuar Lendo »

Travessia

Assim que entro no bar me perco de João. Ele se misturou às pessoas que sacudiam suas cabeças em meio às luzes giratórias e eu fiquei presa na entrada, esperando que a mocinha de terno revistasse minha bolsa. Decepcionada, ela me libera na falta de drogas, garrafas ou facas e eu tento achar meu amigo no meio da batida eletrônica.

João me agarra pelos ombros e uiva no meu ouvido “uhuuuuuuuuuuuu” me arrasta até o bar e pede uma água. Só existe uma situação em que João pediria água. Ele abre a garrafa e me mostra um comprimido “pega isso, deixa embaixo da língua, puta barato”. Obedeço. Sou muito obediente.

Alguns minutos depois, João está desaparecido há anos e eu não me importo. Sem querer, paro na frente de uma porta e tenho a mais clara certeza que era isso que eu procurava. Enquanto tento mexer a mão direita (mas o cérebro parece só mandar sinais para o joelho esquerdo) a porta se abre e Hunter Thompson me encara de cima abaixo “Eles disseram que você seria loira” ele me diz. Ofendida, respondo que “eles me disseram que você estava morto”. Hunter Thompson sorri e me pega pela mão. Descemos uma escada escura e no subsolo descobrimos uma sala de paredes vermelhas e tochas de fogo pendendo do teto. Continuar Lendo »

Maturidade

Era noite e na casa de Eugênia só havia uma lâmpada acesa. As outras se acumulavam em uma caixa de papelão no canto da sala, quebradas ou queimadas. A parca luz do quarto iluminava Eugênia e suas duas filhas, Glória e Teresa, 7 e 9 anos ao pé da cama. Eugênia costurava, ouvia as conversas da filha sobre o dia na escola, os professores e os cochichos que falavam de meninos.

Teresa ajudava Glória com o tema de casa. Mas em certo momento nenhuma das duas conseguia resolver um problema de matemática, suas respostas não batiam com o gabarito que o professor passara. Foi Teresa quem perguntou:

– Mãe, a senhora acha que os professores têm sempre razão? Continuar Lendo »

Medo

Eu estava sentada na cama dele, fumando um cigarro dele, de frente pro aquário dele, olhando os peixes dele, quando ele entrou no quarto e disse:

– Já disse para você não fumar os meus cigarros.

– Um cigarro, Juliano, que diferença faz?

Ele já estava do meu lado, pegando a carteira de Marlboro de cima da minha coxa e resmungando:

– Um cigarro todo dia, durante toda semana já dão sete.

– Eu sei contar, Juliano. Continuar Lendo »

A Vida Parada

Um dia o chefe da repartição chegou dizendo que todos íamos trabalhar até as sete da noite.

– Que porra é essa? – eu disse – meu horário é até às cinco e não fico aqui nem mais um minuto.

O chefe nem me olhou para responder.

– Bem, Thomas, se você quer perder o emprego, não tenho nada com isso.

Ele era o maior filha da puta que já pisara naquele prédio e não era eu quem ia acatar ordens de um imbecil.

– Não estou nem aí – disse para Cris, o garoto que trabalha na mesa ao lado – vou embora às cinco horas. Melinda está em casa me esperando e não vou trocar aquele lindo e quente traseiro pelo traseiro gordo de um idiota. Continuar Lendo »


  • Vida Parada

    Um dia eu escrevi um livro. Perdoem a mentira, foi em mais de um dia. Eu escrevi esses contos ao longo de muito tempo, tempo o bastante para que eu não queira agora pensar em quanto foi, mas eu os juntei todos sob o nome 'Vida Parada' em poucos dias de trabalho, em uma semana que por algum motivo ou por outro eu tinha tempo ou necessidade de escrever. Da mesma maneira, eu agora tenho tempo e necessidade de largá-los no mundo. Esses contos, assim como se apresentam aqui, já foram enviados a umas duas ou três editoras brasileiras que não os quiseram. Da mesma maneira, eu também não os quero mais. Esse site é um exercício de desapego. Perdoem a segunda mentira. É um exercício de despreendimento. Deixo 'Vida Parada' aqui para que saia de mim e me dê tempo e espaço para novas necessidades.
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